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  • 16 de ago de 2017

    As bebidas alcoólicas são tóxicos fatais (Jorge Hessen)





    Jorge Hessen
    jorgehessen@gmail.com

    No Brasil , a Lei Federal 9.294, de 1996 , estabelece restrições” à propaganda de álcool, todavia, o parágrafo único da lei é obscena, notemos:  "Consideram-se bebidas alcoólicas, para efeitos desta Lei, as bebidas potáveis com teor alcoólico superior a treze graus Gay Lussac". Logicamente, ficam excluídas das “proibições” as cervejinhas televisivas. Eis aí a vitória da indústria etílica com direito a “palma de ouro”.
    Em verdade, mais da metade dos brasileiros afunda-se moralmente na farra dos metafóricos “treze graus Gay Lussac” de teor alcoólico. Portanto, como obra prima das “trevas”, a cerveja, que em tese possui um teor alcoólico até o limite de  treze graus Gay Lussac , por não sofrer restrições publicitárias no Brasil,  é liberada para todos , trafegando, de tal modo,  em altíssima velocidade  na contramão da legislação de trânsito que estabelece uma tolerância baixíssima com o álcool. Nessa gerigonça vão os adolescentes se expondo hoje muito mais ao álcool. Está se formando uma geração de dependência de álcool. Além dos riscos à saúde, há os perigos de dirigir embriagado, da violência e de traumatismos decorrentes do abuso de álcool.
    Através das propagandas apelativas, hipnotizantes, que custam bilhões de dólares, intoxica-se a estrutura mental dos adolescentes mais tolos. Dessa forma, os jovens agem sem padrões definidos de comportamento racional, projetam-se em uma perspectiva cada vez mais próxima da derrocada em busca do entorpecimento da consciência e da razão, justificado pelo prazer alucinado no mundo das bebidas, situação, essa, que promove um mergulho no “nada” para as fugas espetaculares da realidade.
    À maneira de um incêndio, que começa de uma fagulha e causa grande destruição, muitos adolescentes, a partir de um simples gole "inofensivo", precipitam-se nos escombros da miséria moral, transformando-se em uma pessoa vazia de ideais.
    É assombrosa a lavagem cerebral através das mídias veiculando reiteradamente o convite para o consumo de cervejas, em razão disso, o volume consumido no Brasil está acima da média mundial. Pela televisão “o gênio das trevas” aconselha, após trinta segundos de propaganda, em tão-somente um milésimo de segundos, o famoso “beba com moderação”.
    Ora, não se pode  aceitar passivamente  uma situação em que as autoridades de saúde passam uma mensagem de legalidade e possível  “moderação” ao mesmo tempo em que a indústria acena com uma publicidade maldita  e cara cujo conteúdo instiga e incentiva  o consumo da cerveja de modo avassalante.
    Para o espírita, o vício de beber tem implicações muito graves, especialmente em face das repetidas advertências dos Benfeitores Espirituais, elucidando sobre os danos que causam à mediunidade, por exemplo. O médium, contaminado pelos alcoólicos torna-se mira de obsessão dos indigentes alcoolistas do além. A obsessão, através da inofensiva cervejinha, é mais generalizada do que parece.
    Num contexto social permissivo, o vício da ingestão de alcoólicos torna-se expressão de "status", atestando a decadência de um período histórico que passa lento e doído.  A Doutrina Espírita adverte sobre essa influência espiritual, oculta, ou seja, o meio espiritual que respiramos pode contribuir para o surgimento de um determinado vício.  Não nos iludamos, o viciado em álcool quase sempre tem a seu lado obsessores extra físicos que o induzem à bebida, nele exercendo grande domínio e dele usufruindo as mesmas sensações etílicas.    
    Pais espíritas e, absolutamente, cônscios da responsabilidade que assumiram perante a família, não devem oferecer bebidas alcoólicas para seus filhos sob quaisquer pretextos. Ao contrário disso, devem envidar todos os esforços para afastá-los das festas regadas a álcool; essa, sim, é uma atitude sensata. Creio que haja suficiente razão para não estocarmos, em casa, as esplêndidas e suntuosas garrafas de bebidas alcoólicas, normalmente, conservadas em um “atraente” barzinho, pois, nelas, está acondicionado o tóxico fatal.

    7 de ago de 2017

    “Sim” ou “não”, eis a questão: (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen
    jorgehessen@gmail.com

    Na Tailândia não se costuma dizer “não”. Isso é evidente até mesmo nas palavras mais simples: "sim" é chai e o mais próximo a "não" que existe em tailandês é mai chai - que pode ser traduzido como "não-sim". Com uma cultura voltada para o coletivo, os tailandeses são ensinados a se preocupar mais com o grupo do que consigo mesmos. É uma sociedade altamente conservadora e tradicional, com uma tradição de que demonstrar prazer e emoção é controlada por normas sociais restritas. “Um tailandês sempre vai dizer ‘sim’ porque a etiqueta social determina que ele o faça." [1]

    Do mesmo modo, aqui no ocidente alimentamos o falso conceito que quem é bom nunca diz “não”. Contudo, a negativa salutar jamais perturba. O que despedaça é o tom contundente no qual é vazado o “não”! Proferir o “sim” ou dizer o “não” exige análise reflexiva e não deve nascer de um impulso ou estado de ânimo alterado ou inerte. É evidente que "tanto quanto o ‘sim’ deve ser pronunciado sem incenso bajulatório, o ‘não’ deve ser dito sem aspereza".[2]

    Há dois mil anos Jesus nos ensinou: “seja o vosso falar: sim, sim; não, não". [3] Tal princípio está contido em O Sermão do Monte, que constitui a base do código de ética do Evangelho. Sobre isso, adverte-nos Emmanuel: “o sim’ pode ser aprazível em muitas circunstâncias, entretanto o ‘não’, em alguns setores da luta humana, é mais construtivo". [4]

    Consentir que os outros decidam por nós é atitude de subserviência; não é humildade e muito menos tolerância e nem brandura. Notemos que a nossa vontade é tão importante quanto a vontade do nosso semelhante. Ora, os nossos anseios, sonhos e emoções têm o mesmo valor dos das outras pessoas. Não admitamos que determinem nossas aspirações, nossas ideias, nossas convicções religiosas, nossas rotinas, nossos modos de ser. Se não agirmos com coragem seremos domados na vontade, e o que é pior, seremos reprimidos nos próprios pensamentos.

    Sem ferirmos o próximo, e isso é mais do que óbvio, é imprescindível dizer o “não”. Precisamos ter o traquejo para dizer o “não” sempre que a situação nos convide a fazê-lo. Até porque, é impossível agradarmos as pessoas a todo instante. Cedermos aos desejos e vontades dos outros pode ser a forma mais fácil de relaxarmos o empenho de busca das nossas intransferíveis necessidades de crescimento espiritual. Em certas ocasiões quando dizemos “sim” para os outros, pagamos um preço elevado por isso.

    Nem sempre precisamos infligir nossa vontade, contudo não podemos deixar que os outros se imponham sobre nós. Não é ajuizado dizer “sim” quando devemos dizer “não”. Porém, por que às vezes quando temos que impor o “não, cedemos ao “sim”? Cada vez que contemporizamos com o “sim” quando a situação exige o “não”, estamos nos definhando na autoridade moral, nos desmerecendo; estamos enfim dando mais importância aos outros do que a nós mesmos.

    Na presunção de não magoarmos os outros, muitas vezes nos justificamos em demasia, como se estivéssemos rogando perdão por não podermos acorrer. Não carecemos de fazer isso! Não temos nenhuma necessidade de nos explicar em demasia e muito menos pedir desculpas pela nossa opção de negativa.

    Ora, se não estamos fazendo nada de censurável ao priorizarmos outros compromissos, não precisamos ficar explicando ou detalhando quais são essas prioridades. Em determinadas circunstâncias, as nossas opções por fazer ou deixar de fazer algo é uma questão de autoconsciência, portando não é da jurisdição de mais ninguém.

    Aprendamos a dizer “não”, ou seja, se não desejamos tal ou qual coisa, digamos “não”; se não concordamos com tal ou qual situação, pronunciemos “não’; se não almejamos compartilhar, falar ou adquirir algo, tão-somente digamos “não”.

    O bom senso nos sussurra que ao dizer “não” estamos apenas dando uma resposta negativa, e isso não é insulto. Cabe aqui uma dica cristã: que os nossos “nãos” sejam proferidos sem rompantes e nem severidades e ponto final.

    Referencias bibliográficas:

    [1]        Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-39450642 acessado em 01/08/2017
    [2]        XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso, ditado pelo Espírito Emmanuel, Cap. "O ‘não’ e a luta", RJ: Ed FEB, 1977
    [3]        Mateus 5, 37

    [4]        XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso, ditado pelo Espírito Emmanuel, Cap. "O ‘não’ e a luta", RJ: Ed FEB, 1977

    31 de jul de 2017

    “Bruna Andressa”- um suicídio “ao vivo”, seus pais e muitas agonias (Jorge Hessen)




    Jorge Hessen

    A jovem Bruna Andressa Borges, de 19 anos, se suicidou e transmitiu ao vivo o ato na tarde do dia 26 de julho de 2017 na casa de seus pais, na Vila Militar do bairro Bosque, em Rio Branco, Acre. O vídeo foi transmitido através do Instagram para 286 seguidores. Bruna era estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Acre (Ufac). Antes de se enforcar também publicou mensagens no Facebook. “Já fui abandonada e julgada pela pessoa que achei que seria minha melhor amiga, a pessoa que amei me humilhou e riu da minha cara, me chamou de ridícula. Talvez eu seja, mas não pretendo continuar perguntando para saber”, escreveu.

    Os pais de Bruna foram encontrados mortos dois dias depois em casa. Os corpos do subtenente Márcio Augusto de Brito Borges, de 45 anos, e da esposa, a ex-sargento Claudineia da Silva Borges, 39, estavam na casa onde moravam, na Vila Militar. As informações da perícia dão conta de que o casal foi encontrado no mesmo local em que sua filha Bruna cometera suicídio dois dias antes.

    Há 7 anos uma jovem  de 15 anos suicidou-se com um tiro de revolver, dentro de uma escola, em Curitiba. Não houve grito nem pedido de socorro. Em silêncio, ela entrou no banheiro e se trancou em uma das cinco cabines. Sentada sobre o vaso sanitário, disparou contra a boca. Três meses antes da tragédia, a jovem procurou os pais e pediu para que eles a levassem a um psicólogo. Dizia sentir-se triste e desmotivada. O pai passou a pegá-la na aula de pintura e levá-la, semanalmente, a um psiquiatra. No inquérito policial sobre o suicídio, apurou-se que ela tomava benzodiazepínicos (soníferos) para dormir, e outros medicamentos para controlar a ansiedade que sentia.

    Diante dos dilemas acima indagamos: Como os pais podem proteger os filhos dos desequilíbrios emocionais que assolam a juventude de hoje? Obviamente, precisam estar atentos. Interpretar qualquer tentativa ou prenúncio de potencial suicídio como sinal de alerta. O ideal é procurar ajuda especializada de um psicólogo e, para os pais espíritas, os recursos terapêuticos dos centros espíritas. Aproximar-se com mais afinco do filho que apresenta sinais fortes de introspecção ou depressão. O isolamento e o desamparo podem terminar com aguda depressão e ódio da vida.

    É evidente que sugerir serem os pais os únicos responsáveis pelo autocídio de um filho é algo muito delicado e preocupante, pois trata-se um ato pessoal de extremo desequilíbrio da personalidade, gerado por circunstâncias atuais ou por reminiscências de existências passadas. Se há culpa dos pais, atribui-se à negligência, à desatenção, a não perceber as mudanças no comportamento do filho e a tudo que acontece à sua volta. Sobre isso, estamos convictos de que a sociedade como um todo é igualmente culpada. Antes de colocar o fardo da culpa nos pais em primeiro lugar, reflitamos: quem pode controlar a pressão psicológica que uma montanha de apelos vazios faz na cabeça dos jovens diariamente?

    O suicídio é um ato exclusivamente humano e está presente em todas as culturas. Suas matrizes causais são numerosas e complexas. Os determinantes do suicídio patológico estão nas perturbações mentais, depressões graves, melancolias, desequilíbrios emocionais, delírios crônicos etc. Algumas pessoas nascem com certas desordens psíquicas, tal como a esquizofrenia e o alcoolismo, o que aumenta o risco de suicídio. Há os processos depressivos, em que existem perdas de energia vital no organismo, desvitalizando-o, e, consequentemente, interferindo em todo o mecanismo imunológico da pessoa.

    A religião, a moral e todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. Todas asseveram que ninguém tem o direito de abreviar, voluntariamente, a vida. Entretanto, por que não se tem esse direito? Por que não é livre o homem de por termo aos seus sofrimentos? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é uma falta somente por constituir infração de uma lei moral - consideração esta de pouco peso para certos indivíduos –, mas também um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica. Antes, o contrário, é o que se dá com eles na existência espiritual após esse ato tão insano.

    A rigor, não existe pessoa "fraca", a ponto de não suportar um problema, por julgá-lo superior às suas forças. O que de fato ocorre é que essa criatura não sabe como mobilizar a sua vontade própria e enfrentar os desafios. Na Terra, é preciso ter tranquilidade para viver, até porque não há tormentos e problemas que durem uma eternidade. Recordemos que Jesus nos assegurou que "O Pai não dá fardos mais pesados que nossos ombros" e "aquele que perseverar até o fim, será salvo". [1]

    Referência bibliográfica:

    [1] Mt. 24,13

    26 de jul de 2017

    Acatemos a dor física como educadora da alma (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen

    Uma comovente batalha judicial dos pais de um bebê britânico em estado terminal acabou envolvendo até mesmo o Papa Francisco. Trata-se de Charlie Gard que sofre de síndrome de miopatia mitocondrial, uma síndrome genética raríssima e incurável que provoca a perda da força muscular e danos cerebrais. Ele nasceu em agosto de 2016 e, dois meses depois, precisou ser internado, onde permanece desde então, no Hospital Great Ormond Street, em Londres.
    O serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS) explicou que Charlie tem danos cerebrais irreversíveis, não se move, escuta ou enxerga, além de ter problemas no coração, fígado e rins. Seus pulmões apenas funcionam por aparelhos. O NHS disse que os médicos chegaram a tentar um tratamento experimental trazido dos EUA, mas Charlie não apresentou melhora. Por isso, defende o desligamento dos aparelhos que o mantêm vivo.
    Mas seus pais, Chris Gard e Connie Yates - e uma comunidade de apoiadores -, lutam contra a decisão do hospital e pedem permissão para levar o bebê aos Estados Unidos para receber o tratamento experimental diretamente. No dia 27 de junho de 2017, entretanto, eles perderam a última instância do pedido na Justiça britânica, que avaliou que a busca pelo tratamento nos EUA apenas prolongaria o sofrimento do bebê sem oferecer possibilidade de cura.
    A Corte Europeia de Direitos Humanos também concluiu que o tratamento "causaria danos significativos a Charlie", seguindo a opinião dos especialistas do hospital, e orientou pelo desligamento dos aparelhos. No dia 02 de julho de 2017, após a decisão da Justiça britânica, o Papa Francisco pediu que os pais de Charlie possam "tratar de seu filho até o fim". O Vaticano disse que o papa estava acompanhando o caso "com carinho e tristeza".
    O serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS) não propõe a eutanásia, mas a ortotanásia [1]. Os pais de Charlie lutam pela distanásia, ou seja, desejam o prolongamento artificial do processo de tratamento, o que para os juízes e médicos tem trazido sofrimento para Charlie, e nessa situação a medicina não prevê possibilidades de melhoria ou de cura.
    No Brasil, médicos revelam que eutanásia é prática habitual em UTI’s, e que apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável é ato frequente e muitas vezes pouco discutido nas UTIs dos hospitais brasileiros. [2] Nos Conselhos Regionais de Medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia, exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares, sobre a hora de cessar os tratamentos.
    Médicos e especialistas em bioética defendem a ortotanásia, como no caso de Charlie Gard, que é o ato de retirar equipamentos ou medicações, de que se servem para prolongar a vida - Charlie hoje se encontra em estado terminal. Ao retirar esses suportes de vida (equipamentos ou medicações), mantendo apenas a analgesia e tranquilizantes, espera-se que a natureza se encarregue de agenciar a fatalidade biológica (morte).
    Charlie está sofrendo com intensidade? Sim, está! Mas toda dor tem a sua serventia. Sob o ponto de vista espírita, aprendemos que a agonia física prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma, e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem. Nem sempre conhecemos as reflexões que o Espírito pode fazer nas convulsões da dor biológica e os tormentos que lhe podem ser poupados graças a um relâmpago de arrependimento.
    Entendamos e acatemos a dor física, como instrutora das almas e, sem vacilações ou indagações descabidas, amparemos quantos lhes experimentam a presença constrangedora e educativa, lembrando sempre que a nós compete, tão-somente, o dever de servir, porquanto a Justiça, em última instância, pertence a Deus, que distribui conosco o alívio e a aflição, a enfermidade, a vida e a morte no momento oportuno.
    O verdadeiro cristão porta-se, sempre, em favor da manutenção da vida e com respeito aos desígnios de Deus, buscando não só minorar os sofrimentos do próximo - sem eutanásias passivas, claro! - mas também confiar na justiça e na bondade divina, até porque nos Estatutos de Deus não há espaço para dores injustas.
    Notas:
    [1]Etimologicamente, a palavra "ortotanásia" significa "morte correta", onde orto = certo e thanatos = morte. A ortotanásia, ou "eutanásia passiva" pode ser definida como o não prolongamento artificial do processo natural de morte, onde o médico, sem provocar diretamente a morte do indivíduo, suspende os tratamentos extraordinários que apenas trariam mais desconforto e sofrimento ao doente, sem melhorias práticas.
    [2]Associação de Medicina Intensiva Brasileira nega que a eutanásia seja frequente nas UTIs no Br

    25 de jul de 2017

    As expressões “Kardecismo” e/ou “kardecista” não devem ser desestimadas (Jorge Hessen)





    Jorge Hessen

    É evidente que o termo espírita só é aquele preconizado por Kardec, sem hibridezes. Entretanto, as palavras “kardecista" e/ou "kardecismo" seriam de uso censuráveis? Talvez seja ineficaz a utilização dessas palavras, no entanto jamais serão impróprias. Além disso, entendemos que há algumas ponderações plausíveis a serem expostas com relação ao assunto.

    Primeiramente recorramos ao Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa [1]. Nele encontraremos as definições: kardecismo - Doutrina religiosa de Allan Kardec; kardecista - pertencente ou relativo a Allan Kardec ou ao kardecismo - adepto do kardecismo. A Enciclopédia Universal define o seguinte: kardecismo - Doutrina de Allan Kardec, espiritismo - kardecista - aquele que adota as doutrinas de Allan Kardec - Relativo a kardecismo [2]. Estamos aqui fazendo referência a duas consagradíssimas fontes do saber.

    Dizem que existe uma guimba de preconceitos a substituição dos termos espírita e Espiritismo pelos termos "kardecista" e "kardecismo", visando que suas crenças não sejam confundidas com aquelas que, para tais, são "inferiores", portanto não querem ser identificados como feiticeiros ou macumbeiros. Mas vale aqui uma ponderação. Em quase todos os lugares que se pratica o mediunismo, alcunha-se de “espírita”.

    Vejamos, existem instituições nomeadas como "centro ‘espírita’ caboclo beltrano", "tenda ‘espírita’ pai sicrano", "cabana ‘espírita’ vovô fulano", "centro ‘espírita’ tenda fraterna", "centro ‘espírita’ de umbanda cobra coral", "centro ‘espírita’ pai Joaquim” etc. Em tais instituições não há qualquer orientação espírita, portanto precisariam substituir o nome ‘espírita’ por espiritualista.

    Apesar das apropriações indébitas do termo ‘espírita’, conquanto sem cumplicidade, pois cada coisa deve estar em seu devido lugar. Os espíritas, respeitamos todas as seitas, cultos, religiões, valorizamos todos os esforços para a prática do bem, trabalhamos pela confraternização entre todos os homens, independentemente de raça, cor, nacionalidade, crença ou nível cultural e social, e reconhecemos que, segundo Kardec, "o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza".[3]

    Se o Espiritismo rejeita quaisquer cultos externos, é óbvio que não pode ser considerado espírita quem exercita cultos em “terreiros”, quem é adepto de magia “branca” ou “negra”, quem adota idolatria, conquanto se consideram espiritualistas. Com as lições de Allan Kardec, cuja literatura não poderá deixar de ser fonte básica do Espiritismo, devemos asseverar que o conceito ou o nome de espírita não podem ser aplicados aos seguidores de qualquer seita ou prática espiritualista, porém tão somente aos estudiosos e praticantes que abarcaram a Doutrina dos Espíritos e por lógica já não se vinculam mais ao ritualismo nem aos preceitos e dogmas que estreitam a inteligência, petrificam a fé e fragmentam o bom senso.

    É por essas e outras que o emblemático sincretismo religioso brasileiro tem remetido as pessoas a confundirem Espiritismo com ocultismo, esoterismo, teosofia, orientalismo, umbandismo, xamanismo, exorcismo, exoterismo, ubaldismo, ramatisismo e demais mistismos iguais ao roustanguismo febiano e outros análogos. Em face disso é perfeitamente compreensível a defesa de alguns confrades para o uso do célebre "sou kardecista" para se harmonizarem de forma racional às circunstâncias cabíveis.

    Kardecismo? Anos atrás, jamais se admitiria essa hipótese, pois Espiritismo só existe um. No entanto, e embora consciente de que o Espiritismo não foi obra de um homem, mas dos Espíritos Superiores, e que o mestre lionês, por isso mesmo, foi apenas o instrumento de que a espiritualidade maior se serviu para transmitir novas diretrizes de amor e paz à Humanidade, nada obsta que cheguemos ao fato concreto de que o sufixo "ismo", em seu pseudônimo, seja disseminado para designar o movimento religioso (Espiritismo) por ele codificado. Ou seja, o termo Kardecismo distinguiria a doutrina por si só.

    Como exemplo dessa ordem, podemos citar o Darwinismo, Platonismo, Socratismo, Luteralismo, Calvinismo etc. E quem nos garante que os métodos desses grandes vultos da História tenham sido particularíssimos, isto é, sem a inspiração de Espíritos Superiores? É óbvio que foram inspirados. Portanto, nada mais justo, oportuno e conveniente que estudemos essa possibilidade, "também", pois os espíritos superiores, por serem superiores, representam a permanente tranquilidade interna ante as atitudes que promovam e dignifiquem o legítimo pensamento espírita.

    Urge que se faça a distinção, pois não podemos admitir que a Doutrina Espírita caminhe com luzes na essência e obscurantismo na sua difusão e aplicação prática. É um fato real e digno de nossa atenção. Naturalmente a nossa presunção no texto não é modificar coisa alguma, mesmo porque não detemos poder para tanto, porém reafirmamos (sem o fantasma da culpa) que o uso das expressões Kardecismo ou Kardecista não constitui um atentado contra a Doutrina dos Espíritos, por isso mesmo não deve ser motivo de censuras, análises severas ou indignação, pois esses vocábulos estão perfeita e intrinsecamente associados ao termo Espiritismo.

     Referências bibliográficas:
    [1]            Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, SP: Ed Positivo, 2010
    [2]            Enciclopédia Universal.  São Paulo:  Editora Pedagógica Brasileira LTDA, 1969

    [3]            KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVII, Item 3, RJ: Ed. FEB, 2001

    “Andar com fé eu vou...” (Jorge Hessen)




    Jorge Hessen

    “Andá com fé eu vou. Que a fé não costuma faiá”, diz o refrão da música do cantor Gilberto Gil. Narra a carta aos Hebreus que a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Cremos que fé é a certeza da aquisição daquilo que se tem como finalidade.

    Sem a fé racional, nas situações de crise, seja de ordem econômica ou agravamento da insegurança pública, as relações sociais, pessoais e familiares se deterioram. Diante das incertezas, é comum que o medo domine as mentes de uns ou de outros. Pensar que não se conseguirá enfrentar uma doença, lidar com os erros, a perda do emprego ou dos bens materiais amplia o temor de muitos. Surge o pânico nalguns ante a chegada da velhice, da solidão, da perda de um amor e assim por diante. Caminha o tímido sob as ansiedade e desconfortos psicológicos.

    Os irrequietos, os estressados visitam, cinco vezes mais, médicos que uma pessoa normal. O sintoma crônico da ausência de fé e do medo estão gerando enigmas físicos e emocionais, tais como infarto do miocárdio, úlcera e insônia. Para nós, estudiosos do Espiritismo, sabemos que a solução para o enfrentamento dos embates da vida e do medo é o exercício da fé coerente, apontando-nos o rumo do equilíbrio emocional. É igualmente a certeza da reencarnação e a convicção da imortalidade que nos reforça o alimento da fé diante dos desafios do viver.

    Fundamentalmente, a fé deve apoiar-se na razão sempre. Até porque a fé não é um dom fornecido por Deus para alguém em especial, nem deve ser imposta de fora para dentro. A fé é o produto da conquista pessoal na busca da compreensão do caminho correto, das verdades que permeiam a essência das próprias vidas, por meio do conhecimento, da experiência, das reflexões pessoais e pelo esforço que se faz para o auto amor e por entender que o amor é a causa da vida, e a vida é o efeito desse amor.

    Na mensagem de Jesus, aprendemos a lição da fé (transportadora de montanhas) da coragem, do otimismo, do bom senso capazes de renovar nossas tendências, impedindo que o medo, a depressão e a angústia se apossem de nosso cotidiano. Até porque “a fé não costuma faiá”.


    17 de jul de 2017

    Intersexualidade, o ser humano não se reduz à morfologia de “macho” ou “fêmea” (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen

    Em 2012, Zainab, uma parteira queniana, fez o parto de uma criança intersexual (que possui órgãos genitais masculinos e femininos). Quando a mãe viu que o sexo do bebê não estava definido, ficou surpresa. O marido pediu para que Zanaide matasse o bebê, mas Zanaide pegou a criança para si e cuidou dela, embora sob riscos, pois na comunidade em que reside, assim como em outras no Quênia, um bebê intersexual é visto como mau presságio, que traz maldição para a família e até para os vizinhos. [1]

    A Intersexualidade em seres humanos é alguma alteração de caracteres sexuais, incluindo cromossomos, gônadas e/ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como inteiramente feminino ou masculino. Essa variação pode envolver ambiguidade genital, combinações de fatores genéticos e aparência e variações cromossômicas sexuais diferentes de XX para mulher e XY para homem. Pode incluir outras características de dimorfismo sexual, como aspecto da face, voz, membros, pelos e formato de partes do corpo. [2]

    Georgina Adhiambo, diretora-executiva da ONG Voices of Women, que trabalha para reduzir o estigma contra pessoas intersexuais no Quênia, disse que o assunto ainda é um tabu. Atualmente as opções de tratamento dos intersexuais variam muito. Alguns pacientes não precisam de cuidados, enquanto outros podem precisar de remédios ou terapia hormonal. Há ainda aqueles que precisam de cirurgia – opção que costuma ser protelada até a puberdade, para que a própria criança possa escolher seu sexo.

    A palavra intersexual é preferível ao termo hermafrodita, já bastante estigmatizado, precisamente porque hermafrodita se referia apenas à questão dos genitais visíveis. Alguns intersexuais podem ser considerados como transgêneros. Porém, tanto a intersexualidade quanto a transexualidade são temas polêmicos, e menos discutidos do que deveriam. Talvez por isso não se compreenda exatamente do que se trata, e essa condição seja motivo de tantos casos de preconceito.

    Ademais, sobre o tema, uma pessoa pode ser cisgênero ou transgênero. O cisgênero se identifica com o gênero correspondente ao sexo biológico, ou seja, se possui órgão sexual feminino é uma menina, se possui órgão sexual masculino é um menino. É o que todo mundo considera regra. Já o transgênero é a pessoa que contesta essa regra, que não tem seu gênero definido pelo sexo biológico. Muitas vezes o transexual se identifica com o gênero oposto ao sexo com que nasceu. Podemos dizer que o transexual é transgênero, mas nem todo transgênero é transexual.

    Um estudo realizado pela Universidade de Washington, nos Estados Unidos, publicado pela revista Psychological Science, concluiu que as crianças transgênero começam a reivindicar um gênero diferente, ao mesmo tempo que as crianças cisgênero se identificam com o gênero correspondente ao sexo biológico, por volta dos 2 anos. É como se a criança olhasse no espelho e não se reconhecesse. É uma expectativa constante de que ela vá acordar no corpo certo.

    Independentemente das demarcações e definições controversas, a sociedade dará sinais de avanço quando compreender a neutralidade de gênero, e que o ser humano não se reduz à morfologia de “macho” ou “fêmea”.

    Ainda sobre a “transexualidade”, por exemplo, Emmanuel adverte que “encontramo-nos diante de um fenômeno perfeitamente compreensível à luz da reencarnação. Inobstante as características morfológicas, o Espírito reencarnado, em trânsito no corpo físico, é essencialmente superior ao simples gênero masculino ou feminino.” [3]

    O mentor de Chico Xavier ainda acrescenta que “aprenderemos, gradualmente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como agentes mais elevados de definição da dignidade humana, de vez que a individualidade em si exalta a vida comunitária pelo próprio comportamento na sustentação do bem de todos ou a deprime pelo mal que causa com a parte que assume no jogo da delinquência.” [4]

    Além disso, aprendemos com o autor de “Há dois mil anos”, “que é urgente amparo educativo adequado [aos sexuais e morfologicamente diferentes], tanto quanto se administra instrução à maioria heterossexual”. [5] E para que isso se verifique em linhas de justiça e compreensão, caminha o mundo de hoje para mais alto entendimento dos problemas do amor e do sexo, porquanto, à frente da vida eterna “os erros e acertos dos irmãos de qualquer procedência, nos domínios do sexo e do amor, são analisados pelo mesmo elevado gabarito de Justiça e Misericórdia. Isso porque todos os assuntos nessa área da evolução e da vida se especificam na intimidade da consciência de cada um.” [6]

    Referências bibliográficas:

    [1]Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39852313 , acessado em 14/07/2017
    [2]Money, John; Ehrhardt, Anke A. (1972). Man & Woman Boy & Girl. Differentiation and dimorphism of gender identity from conception to maturity. USA: The Johns Hopkins University Press. ISBN 0-8018-1405-7.
    [3]XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo, RJ: Ed. FEB, 1977
    [4]idem
    [5]idem

    [6]idem

    11 de jul de 2017

    O Espírita no velório, cerimônia do “até já”,“até logo”, “nos veremos em breve” (Jorge Hessen)



    Jorge Hessen

    Certa vez, um confrade segredou-me que não permitirá velórios no sepultamento de seus familiares mais próximos, porque é totalmente contra tal tradição mortuária. Não vê lógica doutrinária nesse tipo de cerimonial. Crê que após constatada a desencarnação, em no máximo algumas poucas horas, deveriam ser feitos os preparativos para o sepultamento, sem rituais religiosos.

    Busquei esclarecê-lo de que velório ou “velação” não é necessariamente um ritual religioso”, portanto não está associado a religiões, até porque seu início dá-se quando a pessoa está doente e precisa de ser velada, cuidada, vigiada. Pois é! A origem da palavra velar que dá origem a velório vem do latim "vigilare", que dá significado de vigilância. E mais: o termo velar não se refere às "velas", flores, missas, cultos, mas (repito) ao verbo "velar" (de cuidar, zelar).

    O dicionarista define o verbo velar como "ficar acordado ao lado de (alguém)", "ficar acordado durante (um tempo)" e ainda "manter-se de guarda, vigia" dentre outras definições. O termo tem uma conotação exata se de fato as pessoas que vão "velar" o falecido, realmente o fazem com atitude de zelo, vigília, respeito e de despedida do corpo que serviu ao espírito durante a experiência que se encerra.

    É evidente que velar o defunto é atitude respeitável. No velório devemos orar respeitosamente ao amigo que se despoja do corpo físico, dirigindo-lhe por exemplo (como sugestão) a prece indicada por Allan Kardec contida no cap. XXVIII, item 59 do Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “Pelos recém-falecidos”. [1] Protocolarmente ou não, no velório nos solidarizamos com os parentes e amigos do “morto”, auxiliando no que for preciso, seja ofertando um abraço fraterno ou apenas a presença serena, numa empatia repleta de misericórdia, na base da paciência e do estímulo, da consolação e do amor, como nos instrui Emmanuel. [2]

    Em contrapartida, em muitos casos essa celebração se desviou, e muito, do sentido ético, pois acima das emoções justificáveis por parte dos parentes e amigos, ostenta-se um funeral por despesas excessivas com coroas de flores, santinhos, escapulários, velas que podem ser usados em doações a instituições assistenciais, conforme instrui André Luiz. Ouçamo-lo: Os espíritas devem dispensar, nos funerais, as honrarias materiais exageradas e as encenações, pois considerando que "nem todo Espírito se desliga prontamente do corpo", importa, porém, que lhe enviemos cargas mentais favoráveis de bênçãos e de paz, através da oração sincera, principalmente nos últimos momentos que antecedem ao enterramento ou à cremação. Oferenda de coroas e flores deve transformar-se "em donativos às instituições assistenciais, sem espírito sectário". [3]

    Social, moral e espiritualmente, quando comparecemos a um velório exercemos abençoado dever de solidariedade, proporcionando consolação à família. Infelizmente, tendemos a fazê-lo por desencargo de consciência formal, com a presença física, ignorando o decoro espiritual, a exprimir-se no respeito pelo recinto e no esforço de auxiliar o desencarnado com pensamentos elevados.

    Ora, o desencarnado precisa de vibrações de harmonia, que só se formam através da prece sincera e de ondas mentais positivas. Em o livro Conduta Espírita, o Espírito André Luiz mais uma vez adverte-nos para "procedermos corretamente nos velórios, calando anedotário e galhofa em torno da pessoa desencarnada, tanto quanto cochichos impróprios ao pé do corpo inerte. O recém-desencarnado pede, sem palavras, a caridade da prece ou do silêncio que o ajudem a refazer-se. “É importante expulsar de nós quaisquer conversações ociosas, tratos comerciais ou comentários impróprios nos enterros a que comparecermos". Até porque a "solenidade mortuária é ato de respeito e dignidade humana". [4]

    Deploravelmente, poucos se dão ao cuidado de conversar baixinho, principalmente no momento da remoção do cadáver do recinto para a “catacumba”, quando se amontoam maior número de pessoas. Temos motivos de sobra para a moderação, cultivemos o silêncio, conversando, se necessário, em voz baixa, de forma edificante.

    Podemos fazer referências ao finado com discrição, evitando pressioná-lo com lembranças e emoções passíveis de perturbá-lo, principalmente se forem trágicas as circunstâncias do seu falecimento. Oremos em seu benefício, porque “morre-se” como “se vive”. Se não conseguirmos manter semelhante comportamento, melhor será que nem compareçamos ou nos retiremos do ambiente, evitando alargar o estrepitoso coro de vozes e vibrações desrespeitosas que afligem o recém-desencarnado, até porque o “morrer” nem sempre é o “desencarnar”.

    Referências bibliográficas:

    [1]     Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVIII, item 59, RJ: Ed. FEB, 1939
    [2]     Xavier, Francisco Cândido. Servidores no Além, SP: Editora – IDE, 1989
    [3]     Vieira, Waldo. Conduta Espírita, RJ: Ed FEB, 1999
    [4]     Idem

    8 de jul de 2017

    O Espiritismo necessita retornar às suas origens primordiais (Jorge Hessen)

    Allan Kardec
    Jorge Hessen

    Após a desencarnação de Allan Kardec o Movimento Espírita francês e mundial sucumbiu, devido à imaturidade doutrinária de Pierre G. Leymarie. A ele foi incumbido a administração do espólio da família de Kardec e teve a obrigação de sustentar a propagação do Espiritismo, mas ao invés disso mistificou a propaganda doutrinária, e para descrédito do Espiritismo teve que amargar uma cadeira por comprovadas fraudes veiculadas na Revista Espirita. Leymarie era um apaixonado praticante da Teosofia de Blavatsky e defendia as ridículas obras de J.B. Roustaing e para variar era deslumbrado pela maçonaria, ora, com tal “curriculum vitae”, as suas atuações suscitaram o desfalecimento do Movimento Espírita mundial. 

    Cinco décadas após a desencarnação de Kardec, nos primórdios do século XX, houve um surto de renascimento do Movimento Espírita francês e mundial até os meados da década de 1920, graças às lideranças de Leon Denis, Gabriel Delanne, Gustave Geley e Camille Flammarion, desaparecendo, porém, rapidamente, quando esses quatro baluartes desencarnam. Logo após, durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu desmontagem e quase o total aniquilamento do Movimento Espírita nas plagas de Kardec. Sobre esse cenário, André Luiz indagou ao Espírito Gabriel Delanne: “qual a opinião acerca do Espiritismo, na França?”. Delanne respondeu: “Não nos é lícito dizer haja alcançado o nível ideal (...) mas, complementando que legiões de companheiros da obra de Allan Kardec reencarnaram, não só na França, porém igualmente em outros países, notadamente no Brasil, para a sustentação do edifício kardequiano”.[1]

    Sobre o translado do “Espiritismo” para o Brasil, estamos convencidos de que a transposição da respetiva “direção” do Movimento Espírita mundial, da França para o Brasil, sobreveio após a desencarnação dos quatros baluartes supramencionados, no período entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, aliás, coincidindo com o início da missão mediúnica de Francisco Cândido Xavier. Antes desse período, o Espiritismo que era praticado no Brasil seguia o modelito Laymareano , portanto, obrigatoriamente inspirado pela teosofia e pelo roustanguismo, introduzido e apoiado por Luiz Olímpio Teles de Menezes, em seguida liderado pela entidade (edificada a partir do Grupo “Confúcio”) que decidiu autoproclamar-se “mãe” das instituições espíritas do Brasil. 

    Retornemos à França. O Movimento Espírita francês voltou a se recuperar com certa debilidade por volta dos anos de 1950 e 1960 em razão do regresso ao país de alguns espíritas que residiam no Norte da África (Argélia, Marrocos) e começaram a retornar para a terra de Kardec, arriscando remontar o Movimento Espírita. Nesse sentido, sob a batuta de Roger Perez houve uma breve “oxigenação” do Movimento Espírita francês, porém, a bem da verdade, nunca se recuperou, pelo menos em Paris. 

    Hoje há diferentes núcleos espíritas no interior da França, mas sem as características daquelas propostas por Allan Kardec. Sobre isso, recebi de notícias de Charles Kempf, um líder espírita francês, residindo na França e participando do Movimento Francês desde os anos 1990, afiançando-me que as dificuldades continuam as mesmas até hoje, por causa do personalismo exagerado de alguns dirigentes, e desinteresse pessoal na atuação no movimento. Tudo isso por falta de estudo das obras básicas da codificação.

    Do exposto, pois, indagamos: quais os desafios para o progresso do Espiritismo? Segundo Gabriel Delanne (Espírito) a divulgação e o progresso do Espiritismo na Terra terão de efetuar-se de pessoa a pessoa, de consciência a consciência. A verdade a ninguém atinge através da coação. A verdade para a alma é semelhante à alfabetização para o cérebro. Um sábio por mais sábio não consegue aprender a ler por nós. Talvez esse “progresso” do processo de propaganda espírita seja moroso demais para a Humanidade, mas, ainda segundo Delanne (Espírito), uma obra-prima de arte exige, por vezes, existências e existências para o artista que persegue a condição do gênio. Como acreditar que o esclarecimento ou o aprimoramento do espírito imortal se faça tão-só por afirmações labiais de alguns dias? [2]

    César Perri, ex-presidente da FEB, no Brasil, lembra-nos que muitos espíritas e diversos dirigentes jamais leram obras psicográficas de Chico Xavier (não consultam as fontes primárias – os livros), pois estão presos anos seguidos à estudo de “apostilas”. A liderança “oficial” do movimento espírita brasileiro não acompanha a expansão da base, ou seja, dos centros espíritas. Há muito a ser realizado para a compreensão da união entre os espíritas – como laço moral, solidário e espiritual. O respeito à diversidade das situações e condições dos centros espíritas, e o conhecimento dessas realidades para o melhor atendimento e apoio às reais demandas das diversificadas instituições. O trabalho de união deve ser constantemente adequado às bases do movimento, ou seja-os centros espíritas. [3]

    Em suma, cremos que o progresso da Doutrina dos Espíritos não advirá por meio de lideranças federativas, com insuficientes lastros morais, hierarquizadas, emblemáticas e mercantilistas. Aliás, para quem conhece as opiniões de Leopoldo Cirne , após sua saída voluntária da FEB, identificará muitos pontos convergentes que esteamos cá no artigo.

    Nossa proposta, e eis aí o grande desafio, será a propagação do Espiritismo no interior do centro espírita através do intercâmbio fraterno do “boca a boca”, “pessoa a pessoa”, “consciência a consciência”, “ombro a ombro”, sem total necessidade das algemas burocráticas impostas pelas “autoridades” e lideranças federativas “oficiais” , quase sempre sem os lastros de amor e humildade. Lideranças “oficiais” que nada mais fazem do que digladiarem entre si na busca de poderes, de mandos , desmandos e apropriação indébita da coordenadoria do Movimento doutrinário, que deve ser livre, categoricamente distante dos ranços ultramontanistas da pretensa “casa mãe” dos espíritas.

    Inspirado em Herculano Pires reafirmamos que o Espiritismo no Brasil não terá salvação se permanecer sob o tacão das diretrizes oriundas do sofisticado colégio cardinalício (CFN) e das hierarquias impostas pelos ditos órgãos oficiais. Razão pelo qual o Espiritismo necessita retornar às suas origens primordiais (pré-desencarnação de Kardec) que é a SIMPLICIDADE! Ou seja: sem absoluta necessidade de concessionárias “oficiais”[4].

    Referências bibliográficas:

    [1]XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970
    [2] idem

    [4] que não tem nada a ver com a presumida Comissão Organizadora do Espiritismo, segundo Allan Kardec.

    6 de jul de 2017

    O Centro espírita simples é e sempre será o baluarte da Terceira Revelação (Jorge Hessen)




    Jorge Hessen

    O Espiritismo sonhado por Kardec era o mesmo Espiritismo que Chico Xavier exemplificou por mais de setenta anos, ou seja, o Espiritismo do Centro Espírita modesto; da visita e socorro aos desprovidos de bens, da distribuição da roupa, do pão, da “sopa fraterna”, da água fluidificada, do Evangelho no Lar. O grande desafio da Terceira Revelação deve ser o crescimento, sem perder a simplicidade que a caracteriza como revelação..

    Reafirmamos sempre que o movimento Espírita institucionalizado e “oficial” se estrutura sob direção hierarquizado, elitista, mercantilista e vocação vaticanista de infalibilidade. O que os Espíritas precisam é observar, com mais critério, os fundamentos doutrinários que nos impele à íntima reforma moral. Nessa tarefa, individual, intransferível e impostergável, está a nossa melhor e obrigatória colaboração para com o avanço moral do Planeta em que vivemos, pois, moralizando-se cada unidade, moraliza-se o conjunto.

    Um grande exemplo de espírita que viveu longe do chamado Espiritismo “oficial” e anti-burocrático foi Chico Xavier. Que dizia sempre sobre a necessidade da preservação do Espiritismo tal qual nos entregaram os Mensageiros do amor, bebendo-lhe a água pura, sem macular-lhe a cristalina fonte. A maior frustração de Paulo de Tarso se deu exatamente no Aerópago de Atenas, quando os sabichões de então o dispensaram, alegando que haveriam de ouvi-lo em outra oportunidade.

    O filho de Pedro Leopoldo lembrava que o Espiritismo desejável é aquele das origens, o que nos faz lembrar Jesus, ou seja, o Espiritismo Consolador prometido, o Espiritismo em sua feição pura e simples, o Espiritismo do espírita pobre, desempregado, que hoje não pode pagar taxas e ingressar nos pomposos eventos. O Espiritismo desejável é aquele dos velhos, das crianças, da natureza, do “céu aberto” ou debaixo das árvores. Por que não?

    Chico Xavier, em 1977, advertiu: “É preciso fugir da tendência à ‘elitização’ no seio do movimento espírita (…) o Espiritismo veio para o povo. É indispensável que o estudemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e deles nos aproximarmos (…). Se não nos precavermos, daqui a pouco estaremos em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais (…).” [1]

    Elogiemos os congressos, simpósios, seminários, encontros importantes para a divulgação e à troca de experiências doutrinárias, mas não podemos esquecer que a Doutrina Espírita não se tranca nos salões luxuosos, não se enclausura nos anfiteatros acadêmicos e nem se escraviza à liderança “oficial”. À semelhança do Cristianismo dos tempos apostólicos, o Espiritismo é dos Centros Espíritas simples, muitos deles localizados nas periferias das grandes cidades, nos morros, nas favelas, nos subúrbios.

    Graças a Deus!, há muitos Centros Espíritas bem dirigidos em vários municípios do País. Graças a esses Espíritas e médiuns humildes, o Espiritismo haverá de se manter simples e coerente, no Brasil e quiçá no Mundo, conforme os Benfeitores do Senhor o entregaram a Allan Kardec.

    A liderança “oficial” do movimento espírita brasileiro não acompanha a expansão da base, ou seja, dos centros espíritas (não estou fazendo referências aos centrões espíritas luxuosos). Há muito a ser realizado para a compreensão da união entre os espíritas – como laço moral, solidário e espiritual. O respeito à diversidade das situações e condições dos centros espíritas, e o conhecimento dessas realidades para o melhor atendimento e apoio às reais demandas das diversificadas instituições. O trabalho de união deve ser constantemente adequado às bases do movimento, ou seja-os legítimos centros espíritas.

    Em suma, reafirmamos que o progresso da Doutrina dos Espíritos não advirá por meio de lideranças hierarquizadas, místicas e mercantilistas à semelhança dos vendilhões do templo. O grande desafio será difundir o Espiritismo gradualmente através do intercâmbio fraterno do “boca a boca”, “pessoa a pessoa”, “consciência a consciência”, “ombro a ombro”, sem absoluta necessidade das algemas burocráticas de instituições e lideranças “oficiais” que se apropriaram do Movimento doutrinário com precários lastros de amor, desprendimento e humildade.
    Pensemos nisso!

    Referência:

    [1] Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979

    28 de jun de 2017

    O orador espírita deve rejeitar plágios e ribaltas circenses (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen

    Acessando diversos vídeos do You Tube somos convidados a reconhecer que há no Brasil, de maneira especial, em Brasília, alguns palestrantes que plagiam os gestos, a dicção (entonação) verbal e trechos de palestras produzidas pelo Divaldo Franco. Há, (pasmem!) os que não se refreiam na incontida autopromoção e montam (nos salões de palestras) uma superprodução de filmagens, visando posteriormente comercializarem os Dvd’s da “monumental” palestra gravada e logicamente espalharem (ao vivo) pela Internet seus discursos “prestigiosos”.

    É evidente que tais confrades não têm o menor senso de ridículo ao apoderarem-se da identidade alheia, sem o menor constrangimento, Ao imitarem Divaldo, esquecem-se de que tal atitude não passa de uma comédia. Sabemos daqueles que permanecem “horas a fio” em frente ao espelho para treinarem os gestos ou entoação de voz do imitado, que invariavelmente é sempre Divaldo Franco.

    Como se não bastasse, oferecem-se (mendigam fazer palestras) em todas casas espíritas do Brasil (afinal são notáveis na oratória). Para isso, entram em contato de forma insistente com os escaladores e oferecem, "gentilmente", o seu “famoso” nome para serem designados, a fim de palestrar no Centro Espírita.

    Confeccionam cartazes coloridos e divulgam nas redes sociais e em tudo que é canto da Internet, afinal sua palestra é evento especial (ainda que seja uma data de palestras rotineiras do centro).

    A esses irmãos “oradores”, candidatos ao estrelismo no movimento espírita, relembramos que cabe-nos a tarefa de construirmos um discurso próprio e original do Espiritismo. Imitar é horroroso, pois a imitação não consegue reproduzir o verdadeiro conteúdo. Pode-se, até mesmo, imitar o estilo divaldista, mas nunca recriar a profundidade ou a beleza que caracterizam as produções do Divaldo que reaparecem de forma, perfeitamente, reconhecíveis através da legítima oratória.

    Recomendamos usarem a linguagem simples e de bom gosto, lembrando que estamos na tribuna  a serviço do Cristo para explicar e fazer o público entender a mensagem do Espiritismo, não para autopromoção e exaltação da vaidade. Pois quando alguém se propõe a ouvir um orador Espírita, o faz no pressuposto de que ele sabe o que está falando e lhe oferece, silenciosamente, um voto de credibilidade, capaz de mudar, metodicamente, ideias ou conceitos errôneos que nele estavam arraigados, podendo transformar, até mesmo, toda uma vida!

    Jamais julgar-se imprescindível ou privilegiado, criando exigências ou solicitando considerações especiais. Há aqueles palestrantes que abusam da insensatez ao narrarem casos chistosos para fazer público rir durante boa parte da palestra. Usam a tribuna como se fosse um palco de teatro para humoristas. Ora, se o palestrante tem o dom da hilaridade, sem desdouro, que frequente o teatro e exerça a profissão de ator. É muito mais honesto.

    Tais oradores, via de regra, além de plagiarem, são artificiais; não mantêm ordenamento do raciocínio, com começo meio e fim do tema proposto; desconsideram as características da plateia e falam como se todos os ouvintes fossem iguais; apresentam pouco conteúdo e despreparo intelectual; fazem, não raramente,  defesas de ideias que vão "de encontro" ao interesse do ouvinte. Recordemos que  por mais modesto e simples que seja o orador, em sendo ele mesmo, terá êxito. Se imitar o Divaldo, por melhor que seja a imitação, não terá credibilidade e vira circo.

    Em suma, os oradores precisamos palestrar com simplicidade, impedir os próprios arroubos lúdicos, fugir do azedume, controlar a inquietação, posto que a palavra revela o nosso bom senso ou a insensatez. Devemos, portanto, silenciar qualquer finalidade de evidência, calando ostentações de conhecimentos. Todos os oradores somos responsáveis pelas imagens que sugerimos nas mentes dos ouvintes.