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  • 29 de abr de 2013

    SUBJUGAÇÃO ININTERRUPTA SOB O GUANTE DE UMA REENCARNAÇÃO?...


    Jorge Hessen
    http://aluznamente.com.br


    Mordake, o homem de dois rostos




    Por efeito das buliçosas narrativas sobre as deformações físicas, deparamos com eventos gritantes, e ao mesmo tempo melancólicos, de pessoas que (re)nasceram com os mais singulares tipos de aberrações. Edward Mordake (foto) sofria de uma anomalia conhecida como Craniopagus Parasiticus. Ele possuía outro“rosto parasita”acoplado à sua nuca. Em seu caso, poderia parecer apenas um caso de “gêmeo chupim”, mas para muitas pessoas e para ele mesmo, o que existia em sua nuca era algo mais sombrio.
    Conta-se que a face gêmea apresentava alguns indícios de inteligência, porém não ingeria alimentos e inacreditavelmente era capaz de fazer careta, rir e chorar. O “rosto parasita”era flácido e desfigurado, algo ameaçador e tétrico. Narra-se que os olhos da “face intrusa” expressavam malícia e fúria e seguiam as pessoas pausadamente como se estivesse estudando aqueles que visualizavam, os seus beiços invariavelmente faziam barulhos exóticos. Embora sua voz fosse ininteligível, Edward declarou que muitas vezes foi mantido acordado durante a noite por conta dos murmúrios de ódio de sua “face gêmea diabólica” (como passou a chamá-la) e dos zumbidos lúgubres.
    Conquanto o seu caso seja concretamente citado nos primórdios dos relatos médicos, na verdade sua história é misteriosa, e foi analisada como caso irreal durante algum tempo, por ser demasiadamente delirante para se acreditar e, obviamente, por não fazer muito sentido do ponto de vista médico, em alguns momentos. A única coisa que persiste dessa história é a existência de uma foto de Edward, que comprova que ele realmente existiu, mas quando exatamente não se sabe.
    Há um livro intitulado Anomalies and Curiosities of Medicine, de George M. Gould e Walter L. Pyle, que faz referência a Edward Mordake, porém muito do que se conhece de sua vida é baseado em relatos orais. Muitos componentes de sua trajetória foram perdidos no decorrer do tempo e não há fontes consideráveis para os pesquisadores atuais, exceto a foto(1). Sabe-se que ele viveu em completo isolamento, recusando-se às visitas, até mesmo dos familiares. Diz-se que Edward teria pedido aos médicos que removessem sua “cara diabólica”, contudo nenhum clínico foi favorável a fazê-lo, porque a cirurgia seria fatal.
    As pessoas começaram a se afastar dele e isso potencializava sua depressão. Conta-se que nos momentos de tristeza a sua “face extra”permanecia gracejando como se estivesse ridicularizando suas dores. Portanto, padecendo com o bullyng que o “rosto intruso” exercia, Mordake resolveu acabar logo com aquilo e se matou aos vinte e três anos. Diz-se que o suicídio ocorreu logo após seus médicos recusarem fazer a remoção cirúrgica daquele “suplemento facial’ na nuca. Edward teria deixado uma carta solicitando que a “cara satânica” fosse destruída de sua cabeça antes de seu sepultamento, a fim de que ele não continuasse a ouvir seus terríveis sussurros no além-túmulo.
    Descreve-se que gostaria de ser enterrado em um lugar deserto, sem pedra ou legenda para marcar seu túmulo. Seu pedido teria sido atendido pelos médicos Manvers e Treadwell, que cuidavam do caso. Edward foi enterrado em uma cova de terra barata e sem qualquer tipo de lápide ou escultura, também a seu pedido.
    No mundo somos defrontados com inúmeros casos teratológicos que assombram e deixam embaraçados mesmo os mais experientes analistas. Será admissível que junto com alguém que (re)nasce, reencarnar concomitantemente um outro Espírito colado em seu tecido perispiritual (molde do corpo físico), ocasionando pânico, como no episódio narrado, tanto para seu hospedeiro como também para quem o visualiza? Que mistérios existiriam por trás do rosto “demoníaco” de Edward Mordake?
    Pelas leis reencarnatórias, teoricamente, num só corpo não há como reencarnar mais que um Espírito. No caso dos seres siameses, por exemplo, existem dois espíritos em corpos unidos biologicamente (grudados), com dois cérebros (dicéfalos), dois indivíduos, duas mentes. Embora o caso Edward não seja um fenômeno de siameses, é manifesto que existia um Espírito grudado (não sabemos como) naquela bizarra “face traseira”.
    Há casos teratológicos em que nas reencarnações os Espíritos simpáticos aproximam-se por analogia de sentimentos e sentem-se felizes por estarem grudados biologicamente. Porém, os seres que não se toleram se repelem e são extremante infelizes no convívio. É da Lei! No caso Edward, do ponto de vista reencarnatório, que razões levariam a justiça divinaa permitir tal anomalia física? Por que alguns espíritos necessitam permanecer algemados biologicamente, compartilhando órgãos e funções orgânicos, sabendo que nada nos é mais íntimo e pessoal que o corpo físico?
    A ser verdadeira a história de Edward, cremos que são dois espíritos ligados por cristalizados ódios, construídos ao longo de muitas reencarnações, e que reencarnam nessas condições estranhíssimas, raramente por livre escolha e nem por “punição”de Deus, mas por uma espécie de determinismo originado na própria lei de Ação e Reação. Alternando-se as posições como algoz e vítima e também de dimensão física e extrafísica, constrangidos por irresistível atração de ódio e desejo de vingança, buscam-se sempre e culminam se reaproximando em condições comoventes, que os obriga a compartilhar até do mesmo sangue vital e do ar que respiram.
    Considerando que nos estatutos de Deus não há espaços para injustiças, a dualidade espiritual presente no corpo disforme de Mordake é factível . Sobretudo se no  processo de subjugação ocorrida em vidas pregressas , quando o obsessor assume o lugar do subjugado  em vários momentos da vida. A subjugação pode ser moral ou corporal que paralisa a vontade do obsedado.  Materialmente o obsessor atua sobre o corpo físico e provoca movimentos involuntários. Dava-se antigamente o nome de possessão ao império exercido por maus Espíritos.
    Mas,  a possessão seria, para nós, sinônimo da subjugação, pois não há possessos, no sentido vulgar do termo, há somente obsidiados, subjugados e fascinados. Poderá ter como conseqüência a uma espécie de loucura cuja causa o mundo desconhece, mas que não tem relação alguma com a loucura ordinária. Entre os que são tidos por loucos, muitos há que apenas são subjugados; precisariam de um tratamento moral, enquanto que com os tratamentos corporais os tornam verdadeiros loucos. Quando os médicos conhecerem bem o Espiritismo, saberão fazer essa distinção e curarão mais doentes do que com as duchas”.(2)
    Acreditamos que numa reencarnação especialíssima , dois seres que experimentaram a trama de subjugações obsessivas podem  renascer nas condições especialíssimas narradas no texto, todavia evidentemente estamos conjecturando  propondo ao leitor amigo mais amplas reflexões.
    Muitas vezes não é possível, de imediato, dissolverem-se essas vinculações anômalas a fim de que haja total recuperação psíquica dos infelizes protagonistas. No decorrer dos anos, a imantação se avoluma, tangendo dimensões cruciais de alteração do corpo perispiritual de ambos. A analgesia transitória, pela comoção de consciência causada pela reencarnação, poderá impactar e recompor os sutis tecidos em desarranjo da alma enferma.
    Infelizmente não foi o caso Mordake, pois ele fugiu do compromisso.Se à época Edward fosse espírita, poderia ter recorrido a alguns recursos tais como a prática da prece e da doação de energias magnéticas através do passe, por exemplo, que são recursos adequados e indispensáveis para despertar consciências e minimizar os traumas psicológicos. Soluções essas que para ele se descortinariam eficazes, iluminando-lhe a consciência para a necessidade da efetiva reconciliação, arrostando a união pelo laço indestrutível e saudável do amor.

    Nota e referência bibliográfica:
    (1) Em 1896, o livro Anomalies and Curiosities of Medicine, de George M. Gould e Walter L. Pyle, mencionava uma versão da história de Edward Mordake que ficou muito famosa na época e acabou virando referência para vários textos, peças teatrais e até mesmo para uma música de Tom Waits Poor.
    (2) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Cap. XXIII, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1997