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  • 9 de jan de 2015

    “TERRORISMOS” E “FUNDAMENTALISMOS” CONSUMEM OS HUMANOS “IRRACIONAIS” (Jorge Hessen)

    Jorge Hessen

    Dois homens vestidos de preto, encapuzados e armados com fuzis automáticos abrem o fogo na redação de Charlie Hebdo, em plena reunião de pauta, aos gritos de "Allah akbar" (Alá é grande). Matam 11 pessoas na sede do jornal e um policial na saída, antes de fugir de carro rumo à zona nordeste de Paris. A maioria das capas de jornais pelo mundo têm a cor dominante preta em sinal de luto, e anônimos colocam flores, lápis, velas e mensagens perto da sede de Charlie Hebdo. Toda França respeita um minuto de silêncio, enquanto os sinos dobram na catedral Notre Dame de Paris. As luzes da Torre Eiffel, outro cartão postal da cidade, são desligadas por alguns instantes às 20h. 

    Não há, ao menos por enquanto, uma definição oficial no plano internacional sobre o que é propriamente o terrorismo, mas se pode considerar como terrorista todo e qualquer ato ou organização que utilize métodos violentos ou ameaçadores para alcançar um determinado objetivo político. Assim, sequestros, atentados a lugares públicos e privados, ataques aéreos, assassinatos ou outras formas de agressão podem ser relacionados com o terrorismo. Embora as definições de terrorismo sejam imprecisas a atuação dessas organizações é antiga, a exemplo do atentado de Sarajevo, em 1914, constituído pela organização Mão Negra e que culminou na morte do herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando (estopim da Primeira Guerra Mundial).

    Os maiores grupos terroristas da atualidade são de origem islâmica. Como a Al-Qaeda, majoritariamente composta por muçulmanos fanáticos e tem por objetivo erradicar a influência ocidental sobre o mundo árabe; O Boko Haram , organização antiocidental que objetiva implantar a sharia (lei islâmica) no território da Nigéria; O Hamas (sigla em árabe para “Movimento de Resistência Islâmica”) é temido pela maioria das organizações internacionais e Estados. Atua nos territórios da Palestina, tendo como objetivo a destruição do Estado de Israel e a consolidação do Estado da Palestina; O Estado Islâmico (EIIS), grupo terrorista jihadista que age no Iraque e na Síria, tendo surgido em 2013 como uma dissidência da Al-Qaeda, inspirando-se nesse grupo e o Talibã que atua no Paquistão e no Afeganistão, também preocupado com a aplicação das leis da sharia (é o nome que se dá ao Direito Islâmico). 

    Os discursos psicopatológicos e religiosos são apontados como fatores de compreensão causais da questão terrorista na atualidade. Na difusão midiática, esses elementos são a base para a compreensão do fenômeno, eliminando, praticamente, fatores sócio-políticos e econômicos do seu discurso. Contudo, a busca pelo entendimento mais amplo do problema envolve conhecimento das Relações Internacionais, História, Política e Sociologia e Antropologia, aos quais o jornalista atualizado pode recorrer, sempre que se reportar ao terrorismo islâmico contemporâneo.

    Muitas vezes temos a impressão de que a forma da religiosidade armada e eventualmente violenta, conhecida como "fundamentalista", é um fenômeno puramente islâmico (ideia imposta por Israel e os Estados Unidos). Porém, o fundamentalismo é um fenômeno mundial e, em algumas religiões, e, até mesmo, em partidos políticos, tem surgido como resposta aos problemas de nossa modernidade. O termo terrorismo islâmico é abundante nas páginas de jornais e revistas. Reducionista, esta denominação não permite uma compreensão da complexidade que envolve o terrorismo, suas causas sócio-políticas, e deixa implícito que o problema do terrorismo está na religião, portanto, em todo o mulçumano, quando na realidade é um recurso de pequenos grupos que fazem uma leitura extremista da religião e/ou de partidos políticos.

    Para o terrorismo sustentado no fanatismo, os inocentes devem pagar pelos inimigos; a destruição deve ser a única linguagem possível. O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O fato do sujeito se ver como o único que está no lugar de certeza absoluta, de ter sido escolhido por Deus para uma missão qualquer, já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem, aí, uma loucura ou psicose. Seguindo o raciocínio de Sigmund Freud, vemos que aquilo que o psicótico paranoico vivencia na própria pele, o parafrênico experimenta na pele do outro, ou seja, somos levados a supor que o fanatismo está mais para a parafrenia [1] que para a paranoia.

    Temos a convicção de que, por trás dos novos fanatismos religiosos - católicos, evangélicos, espíritas, muçulmanos, hinduístas etc. - há o pendor místico do religioso que leva a uma cristalização da fé, desembocando numa falsa doutrina das virtudes. A base dos fanatismos é o medo: medo à liberdade, medo à vida, medo à cultura, medo, medo, medo, enfim, medo do mundo, que é encarado de um modo suspeito e hostil.

    O fanatismo é a intolerância extrema para com os diferentes. Um evangélico fanático é incapaz de diálogo e respeito para com um católico ou um budista e vice e versa. Um fanático de direita não quer diálogo com os de esquerda e este com aquele. Organizações como a Ku Klux Klan são intolerantes, igualmente, com negros adultos, mulheres e crianças. Destarte, são tão fanáticos os terroristas-suicidas muçulmanos como os fundamentalistas cristãos norte-americanos que atacam clínicas de abortos, perseguem homossexuais, proíbem o ensino da teoria evolucionista de Darwin, obrigando aos professores ensinarem a doutrina criacionista tal como está na Bíblia, ou ainda, os protestantes da Irlanda do Norte que atacam crianças católicas ou os bascos que querem ser um país independente, a qualquer preço, por meio do terror.

    Sabemos que a desordem devastadora de hoje é a guerra aterrorizante da treva contra a claridade do amor. “A vitória do Bem reclama espíritos fortalecidos de Coragem e Fé, acima de tudo. O mundo cheio de sombras do mal não oferece lugar a espectadores. A guerra de nervos traz ameaças, gritos, terrores, bombas, incêndios, metralhadoras, mas o defensor do Bem traz o caráter firme, solidificado na confiança em Deus e em si mesmo. Nestas horas de apreensões justas, recordemos as palavras serenas do Mestre: - "E quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis".[2]

    A Doutrina Espírita nos faz entender quem somos, efetivamente, quem realmente é o ser humano em sua vocação e circunstância, visão que possibilita, por sua vez, a compreensão e a vivência de uma vida social, moralmente correta, a partir da qual podemos julgar com retidão se determinadas atitudes e ideias propostas por grupos políticos e/ou religiosos correspondem àquilo que o próprio Criador espera de nós.

    A Terra é um mundo de expiações e provas, razão pela qual a paz absoluta ainda não se encontra aqui no Planeta, só em mundos mais evoluídos. Em nosso orbe, a tranquilidade social é relativa. [3] É verdade! Ao Espiritismo cristão está reservada a tarefa de alargar os horizontes dos conhecimentos, nos domínios da alma humana, contribuindo para a solução dos enigmas que atormentam as sociedades contemporâneas de todas as culturas, projetando luz nas questões quase que indecifráveis do destino e das dores morais do homem contemporâneo.


    Nota e referências bibliográficas:

    [1] Parafrenia é um composto erudito constituído pelos elementos gregos 'para' ("junto, ao lado de") e 'phrenía' ("estado mental patológico") e significa "conjunto de problemas mentais que inclui a demência precoce e a paranóia".
    [2] Xavier, Francisco Cândido. Harmonização, ditado pelo Espírito Emmanuel, São Paulo: Ed. GEEM. Lição nº 19. Pág.101
    [3] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 20, capítulo V, RJ: Ed. FEB, 2000.