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  • 16 de jun de 2011

    ENTRE O QUE É E O QUE EU ACHO


    "Entre o que é e o que eu acho
    Isto deveria aplicar-se primeiramente ao articulista xwz, segundo quem os achistas são os outros.
    Ricardo Matos Damasceno


    XWZ: O Espiritismo é uma doutrina de estudos constantes, de pesquisas, de experimentações, de racionalidade, de questionamentos, de liberdade, de sensatez, de justiça e de conscientização.

    RICARDO M. DAMASCENO: Quais estudos constantes? Quais pesquisas? Qual racionalidade? Quais questionamentos? Qual liberdade? Qual sensatez? Qual justiça? Qual conscientização? As tuas pesquisas? A tua racionalidade? Os teus questionamentos? A tua liberdade? A tua sensatez? A tua justiça? A tua conscientização? Não me ventiles os teus amigos na monta de recurso à autoridade alheia. Onde ficam os estudos constantes, as pesquisas, a racionalidade, os questionamentos, a liberdade, a sensatez, as experimentações, a justiça e a conscientização dos outros? Nada valem eles quando aos demais pertencem ou só valem alguma coisa quando provêm dos amigos, dos correligionários ou dos apoiadores? Só valem eles quando te concordam com os estudos constantes, com as pesquisas, com a racionalidade, com os questionamentos, com a liberdade, com a sensatez, com a justiça, com a conscientização? Daí exsurge o teu palmar equívoco: a opinião dos outros deve ser achismo, mas a tua (qual?) há de ser pesquisa. O mesmo se observa em outro aspecto: a crítica na boca alheia só pode ser ódio, enquanto - na tua - ela há de ser coerência doutrinária.

    XWZ: Já que é de estudos, todos nós devemos ter liberdade para estudar e ninguém pode nos condenar, por isto.

    RICARDO M. DAMASCENO: Engraçado: invocas a liberdade de estudar, de pesquisar, de investigar em nome próprio para não seres condenado ou censurado!!! Lembremo-nos de que o Espiritismo não se resume ao laboratorialismo e ao experimentalismo, contendo uma dimensão filosófica insuscetível de experimentação materialista. Como acentuou Allan Kardec, no item 30 do cap. X de A Gênese, “o Espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da matéria; admite tudo o que segundo admite, mas avança para além do ponto onde este último para”. Aí se notava um limitação do objeto do materialismo, desencadeando-se uma questão de contorno, nos termos da Epistemologia. Em outras palavras: o Espiritismo não se mostra subsumível à metodologia científica em sentido estrito, sobretudo porque o objeto da Doutrina ultrapassa os lindes da experiência material.

    Ademais, uma atenta, acurada e reiterada leitura dos itens 31 a 34 do cap. III da Parte I de O Livros dos Médiuns, seção em que se tratou do método, não nos permite senão concluir pela não acomodação das bases amplas do Espiritismo à metodologia experimental, porquanto, naturalmente, a Doutrina Espírita também se vaza em uma dimensão filosófica e em uma dimensão religiosa. verdades filosóficas e religiosas não passíveis de demonstração senão no campo da lógica racionalista pré-empírica. Assinalava o Mestre de Lyon o fato de que, “no Espiritismo, lidamos com inteligências que desfrutam da liberdade, que a cada instante nos provam que não se submetem aos nossos caprichos”. Por estas e outras razões, Allan Kardec teceu críticas às teses de Jean Macé, quando se propusera a composição da Liga de Ensino, fato mais tarde responsável pelo distanciamento de Nicola Camille Flammarion em relação à Doutrina em si.

    XWZ: Já que é de pesquisas e experimentações, podemos pesquisar e experimentar. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Todos podem, mesmo os que se oponham ao experimentalismo como aspecto central do Espiritismo. Naturalmente, não se alude à experimentação metodologicamente controlada, antes à ideia de que o experimentalismo seja em si a resolução das proposições filosófico-religiosas do Espiritismo. Vide Allan Kardec. Por outro lado, como definido por Allan Kardec, em O Que é o Espiritismo, “o Espiritismo é uma ciência experimental e uma doutrina filosófica”, além de ter como objeto “a origem, a natureza e o destino dos Espíritos, bem como a relação deles com o mundo material”. Nesse ínterim, o verdadeiro objeto científico do Espiritismo decorre da investigação da fonte gnoseológica da Doutrina,ou seja, a mediunidade e não os Espíritos em si, porque – já advertira Allan Kardec – os Espíritos são seres inteligentes e, portanto, subjetos. Para haver o fenômeno mediúnico, no entanto, deve existir primeiramente a manifestação dos Espíritos. Aliás, eis o grande diferencial relativamente à Parapsicologia como a entende a Escola Norte-Americana: em estudos parapsicológicos, a priori, avaliam-se os fenômenos do Espírito encarnado e não os do Espírito livre do corpo. Clóvis Souza Nunes serviu-se de uma fraseologia muito bem pensada e inteligente: “Enquanto a Parapsicologia descobriu o Espírito pelo homem, o Espiritismo descobrira o homem pelo Espírito”. 
    XWZ: Já que é de questionamentos, podemos, sim, questionar a vontade, visto que, quem questiona busca o entendimento completo, detalhado e bem raciocinado da coisa a qual questiona. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Até aqui tudo bem, mas não necessariamente para alcançar um estado de concordância.
    XWZ: Se eu acho que você não deve pesquisar, não deve experimentar nada, não deve questionar e não deve estabelecer polêmicas nos pontos, da própria doutrina, onde surgem algumas dúvidas, sejam elas de entendimento ou de interpretação, é coerente você se submeter ao meu achismo e não pesquisar nada, não estudar nada e não questionar nada? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Pois é. Não, mas não se podem qualificar de achismos as opiniões alheias só porque divergentes. A tua argumentação mantém-se em uma zona cinzenta, em que se opta ora pelo preto ora pelo branco.
    XWZ: Só se você for uma pessoa boba, de racionalidade limitada e inteligência atrofiada. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Sim, inclusive relativamente ao articulista.
    Em tudo existe muita diferença entre o que é e o que achamos que é. Exatamente. No entanto, por que só a opinião dos que divergem seria enquadrável em achismo? Logo, o que achas que é o que é não pode ser necessariamente o que é, de tal modo que existe aqui um paradoxo. Agora, por exemplo, eu tenho a impressão de que estás apenas achando e não percebendo o que de fato é. Achismo do mesmo jeito, colega. Todas as vezes em que debatemos o Espiritismo, socorri-me de textos doutrinários, de livros, de autores os mais diversos etc, enquanto te limitaste ao discurso panfletário a pretexto de estares com Allan Kardec e com o Espiritismo. Mostra-me, em resposta ao presente repto, uma só e ínuba mensagem tua em que hajas enfrentado as dificuldades apresentadas sem achismo. No debate com o pessoal do Apologizar Espiritismo, não exibiste uma só mensagem em que houvesses confutado a nossa imputação de uso de falácias como o argumentum ad hominem, o argumentum ad populum e o paupérrimo argumentum ad verencundiam. Depois, os achistas são os outros.
    XWZ: Achar que uma coisa é assim ou assado é um direito que a gente tem, posto que achar é coisa que ocorre conforme o entendimento de cada um, mas AFIRMAR que uma coisa é assim, tem que ser assim e não da forma como qualquer outra pessoa possa também achar, passa a ser um absurdo, a não ser que essa afirmativa seja estabelecida em cima de questões lógicas. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Só pode ser eutrapelia. Onde a lógica da tua argumentação, amigo? Uma lógica artificiosa e prenhe de sofismas? Mostra-me uma só e celibatária mensagem em que hajas enfrentado as dificuldades apresentadas pelos membros do Apologizar Espiritismo, inclusive o nosso amigo Paulo Neto. Ficaste apenas na relativização da mediunidade e dos métodos de controle kardecianos, aludindo a Luís Antonio Gasparetto, aos navios, ao tal Calunga etc.
    XWZ: Por exemplo: Eu posso afirmar que o azul é uma cor, mas não posso afirmar que o azul é a mais bonita das cores. 
    RICARDO M. DAMASCENO:  Sim, claro, mas quem se põe a dizer o contrário?! Ademais, isto parte de uma premissa errada, à luz dos mesmos parâmetros de raciocínio. A tua percepção do azul não pode ser demonstrada como a minha percepção de azul. Por outro lado, não se pode negar ao Espiritismo e aos estudos científicos uma dimensão axiológica, na qual existem graus de preferibilidade. Ora! O bom senso a que aludia Allan Kardec não tem outra dimensão senão a de natureza axiológica, isto é, a de natureza valorativa. Tens uma noção outra do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE), bem olvidada no Movimento Espírita Brasileiro em nome de médiuns cujas obras devem ser engolidas por todo o mundo, a pretexto de nem tudo ser condenável? Afastar valorações como autêntico mecanismo de encontrar a verdade implica integral ignorância das bases filosófico-religiosas do Espiritismo. O emérito Codificador, em quem te louvas sem um única referência à Codificação, por mero argumento de falsa autoridade, referia-se às ciências positivas, haja vista o nascimento do Positivismo no séc. XIX pelas mãos de Auguste Comte. No entanto, a ideia de ciência – no contexto espírita – tem natureza polissêmica ou plurissemiótica e não equivale necessariamente à noção acadêmica, razão por que a própria Sociologia da Ciência tem proposto uma análise de como se edifica a denominada autoridade científica. Vale a pena ler Edgar Morin, Boaventura de Souza Santos, Gaston Bachelard, Feyerabend, Thomas S. Kuhn, Mário Bunge etc, só para apreender-se um pouco o problema da axiologia nas escolhas científicas.  
    XWZ: Quando digo que ele é uma cor, estou fazendo uma afirmativa lógica, correta, inquestionável já que ninguém poderá dizer que o azul não é uma cor. Todo mundo concorda, porque não tem como discordar. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Sim, mas e daí? Afirmá-lo uma cor não atesta a sua natureza, a sua interação com o percipiendário, a sua identidade em relação a todos os que a percebem. Isto apenas no mundo da inafastável valoração. Ademais, o fenômeno valorativo tem sim importância no deslinde dos problemas lógicos, uma vez que a própria ciência se há demonstrado assim edificada, segundo escolhas e preferências estéticas. Logo, o argumento não parece inteiramente válido.
    XWZ: Mas quando ouso afirmar que o azul É A MAIS BONITA das cores, e coloco isto como verdade, aí eu já entro no campo da presunção, ao pretender que o meu gosto pessoal seja necessariamente uma verdade. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Então, na análise das obras mediúnicas, existe emissão de juízos estéticos? É isto? Por que não demonstras tais afirmativas ou sempre recorres a raciocínios axiomáticos?
    XWZ: Isto acontece, demais, no campo das discussões entre nós espíritas.
    RICARDO M. DAMASCENO:  Ah! É???!!! Então, não há no Espiritismo nada a ultrapassar a zona da valoração? Aqui estás a te contradizer, XWZ. O Espiritismo intenta-se uma verdade universal, ainda que assim não o admitas. De mais a mais, não sendo admissível – no plano lógico do Espiritismo – um plano axiológico, algumas afirmativas doutrinárias serão reduzidas a um nada filosófico. Como demonstrar a pureza dos Espíritos mediante experimentações científicas? Como? Como demonstrar algumas afirmativas universais do Espiritismo, pelo método indutivo, sem admitir-se a natureza extramaterial e revelatória da Doutrina? Como?

    XWZ: O azul é uma cor
    XWZ: Isto é uma VERDADE

    XWZ: O azul é a mais bonita das cores
    XWZ: Isto é uma OPINIÃO PESSOAL

    XWZ: Muitos espíritas precisam aprender a separar o que é VERDADE de o que é OPINIÃO PESSOAL, INTERPRETAÇÃO PESSOAL, VISÃO PESSOAL, ENTENDIMENTO PESSOAL. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exatamente, inclusive tu mesmo.
    XWZ: Eu seria muito presunçoso ao querer fazer com que todas as pessoas absorvessem, como verdade, a minha preferência pessoal, o meu entendimento pessoal e a minha visão, porque estaria subestimando a inteligência dos outros, fazendo as outras pessoas de bobas e sem condição de ter entendimento próprio e direito de discernir. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Tem-se uma visão da Doutrina Espírita posta na obra. Aliás, este raciocínio não passa de valoração idêntica à que aplicaste à ideia da cor azul. Trata-se de mera preferência. Cada um pode entender um tema como lhe aprouver, porém, sem argumentação lógica, não pode intentar-se correto, não através de sofismas de generalização etc. O mesmo se aplica aos que, publicando as mais diversas sandices presumidamente mediúnicas, intentam fazer bobos os outros.
    XWZ: É o que ocorre muito, e que termina virando motivos de discussões enérgicas em nosso meio. Exato, inclusive dentre os que, a todo custo, defendem tudo, todos e qualquer coisa. Eis os que se referem a médiuns que escrevem besteiras e deles fazem apologia escancarada, mas não têm coragem de apontá-los, nem a eles nem às besteiras.
    XWZ: Observemos alguns detalhes:
    Já que a Doutrina nos ensina que Jesus é o nosso maior modelo, vale lembrar que ele afirmou que a gente conhece uma árvore, pelos seus frutos e qualquer homem racional entende isto sem muito esforço. Se uma árvore dá bons frutos, ela não pode ser considerada má. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exato. Então, como se vai determinar se os frutos são bons ou maus sem valoração, sem escolhas e sem preferibilidade? Não sabias que o conceito de bem e de mal integra o plano axiológico? Vide questões 126, 127 e 630 de O Livro dos Espíritos.
    XWZ: Entretanto algumas criaturas, se perceberem, por exemplo, que o caule da árvore é de uma tonalidade marrom, uma cor que elas não gostam, terminam se achando no direito de condenar toda a árvore e todo o fruto bom que ela dá, só porque a cor do caule não é do seu agrado. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Ah! Entendi aqui o campo aonde pretendes chegar!!! Relativizar o juízo acerca de uma obra ao argumento de se tratar de uma (suposta) opinião pessoal. Diante de tamanho argumento, tudo se afigura estritamente real e não apenas possível, inclusive inúmeras historietas da carochinha. Em Direito, utiliza-se na análise da legalidade de uma prova a máxima sentenciosa the fruits of the poisonous tree (os frutos da árvore envenenada). O grande problema está em que os frutos podres não tornam confiável a árvore, sobretudo se não se tem coragem de retirá-los e de atirá-los ao lixo, mantendo-se incólume, pois, o odor mefítico. Há três capítulos a que os “espíritas” não conferem a mínima importância em O Livro dos Médiuns, graças aos misticismo em que anda há muitas décadas vivendo o MEB: cap. XVIII (Inconvenientes e Perigos da Mediunidade), cap. XXVII (Contradições e Mistificações) e cap. XVIII (Charlatanismo e Jogralice) da Parte II. 
    XWZ: É um absurdo! 
    RICARDO M. DAMASCENO: Mas não é mesmo?!
    XWZ: Paulo de Tarso, o maior propagador do Evangelho, sugeriu em suas cartas aos tessalonicenses: “Examine de tudo e retenha o que é bom”. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Isto aqui está a depender da interpretação e, portanto, da “cor azul que é a mais bela de todas”. Não há, pois, examinar e reter o que é bom e desprezar o que é mau sem a valoração do pensamento e da obra. Se uma obra mediúnica detém aspectos duvidosos, afigura-se duvidosa a fonte da qual ela promana. Por outro lado, haveria censura se e somente se o médium não pudesse trazê-la à baila. No entanto, pretende-se impor silêncio à crítica em nome de uma liberdade irreconhecida aos outros.
    XWZ: Jesus, ao perceber um cachorro morto e já em estado de putrefação, procurou ver a beleza dos dentes que tinha o animal, enquanto os seus apóstolos só conseguiam ver a podridão, na visão de que nada presta e temos que condenar tudo. 
    RICARDO M. DAMASCENO: A analogia mostra-se nitidamente imperfeita, mesmo porque não existe cachorro médium (vide cap. XXII, Parte II, de O Livro dos Médiuns). Do cão morto só restaram os dentes e o rigor mortis. De mais a mais, o fato de Jesus haver observado a dentição canina não implica a convicção de que ele não sentisse as cadaverinas e as putrescinas da carne putrescível. Por outro lado, deve-se perguntar se a beleza dos dentes tornaria prestável o cadáver de Veludo, o cão. Como nos advertem os Espíritos na questão 969 da Obra Inaugural, não se devem entender ao pé da letra algumas expressões. Mutatis mutandis, retiraram-se do cão os dentes para transformá-los em escapulário? Ora, cuidado com a “cor azul que é a mais bela de todas”. Se, de um lado, nem tudo há de servir-nos, não podemos usar o que nos serve para atestar o que não nos serve!!!
    XWZ: Mas será que nada disto serviu de lição para mim? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Certamente. Qual lição, porém?!
    XWZ: Eu passo a criar caso e até me indispor com as pessoas, só porque elas gostam de obras que eu não gosto e ainda venho me dizer espírita, que é uma doutrina de liberdade, de discernimento, de pesquisa, de observação, de coerência e de razão? Pergunte-se novamente: Qual liberdade? Qual discernimento? Qual pesquisa? Qual observação? Qual coerência? Qual razão? A tua liberdade? O teu discernimento? A tua pesquisa? A tua observação? A tua razão? Observa aí também o problema da “cor azul que é a mais bela do mundo”.
    XWZ: Eu condeno uma obra INTEIRA, porque nela contém alguns pontos que divergem da maneira como EU vejo, e ainda quero me dizer espírita e, ainda mais, defensor da doutrina? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Então, erraram, de cambulhada, José Herculano Pires, Paulo Autuori, Luciano Costa, Gélio Lacerda de Azevedo, Cosme Mariño, Humberto Mariotti, Carlos Imbassahy (pai), Erasto de Carvalho Prestes etc?! Existe uma Codificação Espírita a que se deve o mínimo de respeito. Do contrário, pode-se aceitar qualquer coisa e franquear o espaço do vale tudo mediúnico. Então, defensor do Espiritismo és tu?! Trata-se do argumento da zona cinzenta, pois não se têm apenas pontos de vista.  
    XWZ: Afinal de contas, a quem eu pretendo enganar? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Pois é. A quem, XWZ, pretendes de fato enzampar, engrupir ou embair? A quem mesmo?
    XWZ: Que capacidade tenho eu para afirmar que a obra X ou Y possuem a verdade absoluta, que é inquestionável e inabalável, e que deve ser aceita cegamente pelos outros? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exatamente. Qual a tua capacidade para, desfazendo-se da dos outros, pretender-se o arauto da clareza e da segurança espíritas? Então, a obra de Allan Kardec mostra-se abalável ou questionável? Por que intentas, então, exigir dos outros uma cegueira em relação a dadas obras mediúnicas? Só tu podes não aceitar cegamente o que te impõem? É isto? Cuidado com “o azul que é a cor mais bela do mundo”.
    XWZ: Algum espírita considera coerente o católico achar que o papa é infalível? Como podemos, então, achar que as nossas visões e interpretações são infalíveis? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Que têm a ver alhos com bugalhos, aipim com inhame ou abóbora com abricó? Por acaso, aqui se fala de católicos? Por outro lado, os princípios e axiomas do Espiritismo são falíveis, abaláveis, corruptíveis? Afigura-se falível, abalável ou corruptível a interpretação de Allan Kardec sobre a existência da reencarnação, por exemplo? Aliás, entras aqui para o rol daqueles cujas visões e interpretações não se mostram infalíveis, a ser válido o teu argumento.
    XWZ: O pior é que tem muita gente que, para fugir da máxima “minha visão é a única correta”, pra não se expor ao ridículo, termina por ter a pretensão de querer fazer os outros entenderem o “a minha visão é a visão do Kardec”, “o meu pensamento é fiel à doutrina”. Aí danou-se tudo. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exato. O articulista também não age desse modo, ao servir-se de Allan Kardec e de Jesus, o Cristo, para explicar e justificar xingamento e suposta energia? Tem-se aquilo a que já me reportei: a crítica na boca dos outros transforma-se em ódio, mas na tua ela vira coerência doutrinária. Faze-me rir, XWZ, novamente. Quantas vezes, sem a mínima demonstração, atribuíste a Allan Kardec este ou aquele comportamento desajustado?! Depois, são os outros que se afirmam portadores da “visão de Kardec”.
    XWZ: É assim que a coisa acontece: Todo intolerante espírita, que odeia confrades que pensam diferente, praticante de proibições, cerceamentos, boicotes e sabotagens a companheiros, ainda tem a presunção e o cinismo de dizer que faz isto pela “pureza doutrinária”, em defesa da doutrina! 
    RICARDO M. DAMASCENO: Tolerância e concordância são fatores inconfundíveis, apesar de conjugáveis. Então, José Herculano Pires, Paulo Autuori, Luciano Costa, Gélio Lacerda de Azevedo, Cosme Mariño, Humberto Mariotti, Carlos Imbassahy (pai), Erasto de Carvalho Prestes, Nazareno Tourinho são ou foram cínicos? Todo esse pessoal devia realmente ser um bando de gente cínica, hipócrita e leniente. Como assinalava o emérito Pedagogo francês, “défendre un livre, c’est prouver qu’on le redoute”. Por acaso, o mercado editorial não está prenhe de obras ditas mediúnicas, de valor duvidoso? Não se podem, no entanto, imunizar tais obras à crítica, a título de fraternidade. Puríssima e chapada hipocrisia.
    XWZ: É aquela conversa do “estamos afastando a nossa irmã dos trabalhos, PARA O BEM DELAAAAAAA”, “vamos difamar a nossa irmã, mas muito fraternalmente”.  
    RICARDO M. DAMASCENO: De fato, a difamação há de ser meio apenas dos covardes e dos pusilânimes. Quem andou difamando um companheiro espírita há poucas semanas, em tom ridiculamente agressivo, a pretexto de fraternidade espírita? Nos outros, o ataque sempre será difamação, mas em outras pessoas apenas coerência doutrinária. Cínico, em sentido literal, é aquele que fala o que não pratica.
    XWZ: Gente, tem sentido eu fazer, por exemplo, um Espiritismo sem espíritos e afirmar que estou seguindo Kardec, sendo que o que ele mais fez foi Espiritismo COM espíritos? Eu estou sendo é contraditório à ele. 
    RICARDO M. DAMASCENO:  Por acaso, Allan Kardec acolhera tudo quanto lhe ditaram os Espíritos? Ele publicara e editara tudo quantos ele recebera de ultratúmulo, a pretexto de ser uma verdade? Muito pelo contrário. Como, então, à revelia do Controle Universal do Ensino dos Espíritos e da prudência metodológica de Allan Kardec, trazer à baila tudo quanto se produz mediunicamente sem a pretensão de se obterem críticas? Outra falácia grosseira. O fato de o emérito Codificador haver investigado, analisado, averiguado as comunicações espíritas não significa aceitação de tudo quantos lhes proviessem!!! Sofisma...
    XWZ: É possível alguém, que tenha o mínimo de inteligência, admitir aqueles papas, bispos e padres que praticaram a inquisição, como representantes de Jesus, se o que o Mestre ensinou foi totalmente diferente daquilo, o inverso daquilo, já que ele foi a maior expressão da não violência da humanidade?
    RICARDO M. DAMASCENO:  Então, José Herculano Pires, Paulo Autuori, Luciano Costa, Gélio Lacerda de Azevedo, Cosme Mariño, Humberto Mariotti, Carlos Imbassahy (pai), Erasto de Carvalho Prestes, Nazareno Tourinho são ou foram inquisidores?! Quando Heloísa Pires publicamente criticou e rejeitou o misticismo da teoria da crianças índigas e cristais, ela estava sendo inquisidora. Eu tenho o vídeo aqui. De mais a mais, quais espíritas submetem ao potro, mergulham em piche fervente, abaixam na cadeira de Judas, decapitam médiuns? Analogia tatibitate para, em uma ignoratio elenchi, desviar o foco discursivo e pôr o assunto em uma zona cinzenta.
    XWZ: Como é que alguém que odeia, tortura e assassina pode se afirmar seguidor de Jesusssssss????? Qual Jesussssss?????? 
    RICARDO M. DAMASCENO: Então, José Herculano Pires, Paulo Autuori, Luciano Costa, Gélio Lacerda de Azevedo, Cosme Mariño, Humberto Mariotti, Carlos Imbassahy (pai), Erasto de Carvalho Prestes, Nazareno Tourinho odiaram, mataram, torturaram? Engraçado: quando te interessa, Jesus assume o caráter enérgico e malsina os fariseus. Quando não, ele passa a ser exemplo de tolerância. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.
    XWZ: A sua inteligência certamente não admite, mesmo sabendo que eles afirmavam, na época, que praticavam todas aquelas atrocidades em nome da “pureza da fé”, exatamente do mesmo jeito que eu, como espírita, poderia estar praticando absurdos, em nome da “pureza doutrinária”. É exatamente a mesma coisa e você só não percebe se não quiser ou se estiver com sua inteligência atrofiada. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Idem, ibidem. Nem a minha inteligência pode acolher analogias impróprias, ilídimas e imperfeitas para debater-se o problema da fidelidade doutrinária. Exatamente, só a mente atrofiada pode aceitar uma coisa dessas!!!
    XWZ: Em um campo mais popular podemos comparar:
    Há flamenguistas que odeiam vascaínos, palmeirenses que odeiam corinthianos e vice-versa nos dois casos, chegando ao ponto de agredirem, torturarem e até matarem. 
    RICARDO M. DAMASCENO: O Espiritismo mostra-se uno. Por acaso, existem vertentes espíritas à maneira de um certo escritor espírita, colunista e ex-católico, segundo quem a Umbanda compõe uma seita espírita e Trigueirinho um dos Espíritos da Santa Igreja Católica dos Espíritos Salvos ou alguma coisa quejanda?
    XWZ: Qualquer pessoa sensata enxerga nisto um dos maiores absurdos do comportamento humano, um profundo desequilíbrio e um nível de selvageria gigantesco. O fato de odiar o outro, já é um absurdo inaceitável, que dirá quando chega ao ponto de bater, agredir, torturar e até matar. Atinge o mais elevado nível de selvageria e não pode ter outra classificação senão criminoso e assassino. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Então, não há selvageria em xingar os outros e em difamar do mesmo jeito então censurado?! Quando difamaste Jorge Hessen, não viraste um criminoso e assassino a se arvorar em exemplo de fraternidade espírita? Das duas uma: ou o senso ou o conceito de fraternidade está errado. Como se denomina quem prega e não pratica, quem fala uma coisa e faz outra?
    XWZ: Poxaaaa, só pelo fato de uma opção por time de futebol, pessoas chegam a odiar e até matar o seu semelhante?  
    RICARDO M. DAMASCENO: Idem, ibidem. Onde está acontecendo isto? Em Santos?
    XWZ: Exatamente este mesmo absurdo acontece comigo, quando eu discrimino um companheiro, pelo detalhe dele gostar de uma obra espírita que eu não gosto, chegando ao extremo de atacá-lo, proibi-lo, censurá-lo e até difamá-lo no objetivo de acabar com a imagem dele, mandando-o para as profundezas do inferno. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exato. Idem, ibidem.
    XWZ: Isto acontece, demais, no universo religioso e em nosso movimento, com muito mais intensidade do que você pode imaginar. 
    RICARDO M. DAMASCENO:  Então, não há selvageria em xingar os outros e em difamar do mesmo jeito então censurado?! Quando difamaste Jorge Hessen, não viraste um criminoso e assassino a se arvorar em exemplo de fraternidade espírita? Das duas uma: ou o senso ou o conceito de fraternidade está errado. Como se denomina quem prega e não pratica, quem fala uma coisa e faz outra?
    É preciso que haja a disposição para se discutir isto em nosso movimento, porque a situação é muito mais séria e mais grave do que se pode imaginar. Não podemos ficar fingindo que não estamos vendo essas coisas acontecer, porque estaremos sendo omissos, do mesmo jeito que omisso foi o povo que viu Jesus ser assassinado e pregado numa cruz e não fez nada. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exatamente, como eu estou fazendo agora.
    XWZ: Esta bandeira que eu defendo o tempo todo, não tem nada a ver com “liberar total”, permitindo que todas as maluquices devam ser praticadas na casa espírita, em nome de Espiritismo, conforme lêem alguns extremistas radicais que, com muita má fé, comentam as minhas propostas, no sentido de fugirem desta realidade que eles mesmos são os primeiros a praticarem. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Ah! Não?! Tem a ver com o quê, então? O que serve explica e justifica o que não serve? No programa com Heloísa Pires, uma quase elogiosa defesa da fidelidade doutrinária e louvores a Herculano Pires. De outra feita, a incondicional defesa do casamento espírita, a pretexto de não envolvimento na vida alheia. Conveniência pura?
    XWZ: Podemos, sim, discutir e debater a prática coerente com a doutrina, sem necessidade de ser perversos, cruéis, frios e desonestos com ninguém.
    RICARDO M. DAMASCENO: Então, José Herculano Pires, Paulo Autuori, Luciano Costa, Gélio Lacerda de Azevedo, Cosme Mariño, Humberto Mariotti, Carlos Imbassahy (pai), Erasto de Carvalho Prestes, Nazareno Tourinho odiaram, mataram, torturaram? Engraçado: quando te interessa, Jesus assume o caráter enérgico e malsina os fariseus. Quando não, ele passa a ser exemplo de tolerância. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Foram eles perversos, cruéis, frios e desonestos?
    XWZ: Não nos deixemos levar por esses supostos donos do espiritismo que existem por aí, patrulhando a vida dos outros, enchendo a paciência dos outros, com suas supostas sabedorias, que de sabedoria não tem nada. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exatamente. Nem eu. Observa bem aí: quem está patrulhando a vida dos outros? Depois, na tua opinião, isto não tem nada a ver com “liberar total”. Coerência doutrinária de bastidores!!!
    XWZ: Amar e ser caridoso é uma coisa, ser besta é outra. 
    RICARDO M. DAMASCENO: Exatamente. Eis a razão de se deverem criticar obras estranhas.

    XWZ: Com um forte abraço.