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  • 14 de ago de 2012

    COMENTÁRIO INTERESSANTE SOBRE A DESONESTIDADE

    GERALDO MAGELA MIRANDA


    Meu caro irmão, muito bem ditas as suas palavras. O que você disse é de uma cristalinidade só.
    Contudo, não existe aquela célebre “atire a primeira pedra aquele que nunca errou”? Pois é, eis um dilema que nos acompanha, e constantemente lançamos mão dessa máxima para justificar nossas faltas.
    Ter consciência pressupõe a faculdade do bom senso, e isso sim, acho que é o que nos falta. Não somos perfeitos, de fato, e um desvio ou outro haveremos de ter. A questão é o quanto nos permitimos o desvio. O corrupto, que arquiteta tomar para si aquela soma que não fará falta a ninguém, segundo o seu entendimento, age com bom senso? Claro que não, e a consciência do desvio também pouco importa para ele, porque não vê como ilícito o seu ato. No trânsito, estamos cansados de ver atitudes de egoísmo gratuito, apenas porque aquela pessoa “acha” que deve ter prioridade, enquanto que é tão simples o princípio da equidade, da igualdade de direitos – é mais corriqueira uma falta de educação do que uma gentileza quando circulamos pela rua, não é mesmo?

    Então acho que é um dilema para nossa raça essa questão do bom senso e da consciência, porque defendemos a atitude que tomamos, muitas vezes baseados numa premissa equivocada, senão criminosa, esta última uma verdadeira falácia dos princípios da ética.
    Eu já disse aqui pra você que meu pensamento sobre o nosso “estado da arte” do que é ético, educado, remete ao que se deu durante a colonização do Brasil, sobretudo após a chegada de D. João VI, com as mazelas que se instalaram, e que se tornaram, ao meu ver, a semente da malandragem e dos desvios que vemos tão corriqueiramente, a ponto de se tentar diminuir uma ação criminosa e vergonhosa que é o “mensalão” a uma simples prática de “caixa 2”, como se isso já não fosse delituoso, e cujo objetivo é esvaziar o episódio, tentando nos imputar a ideia de que “todo mundo faz”, portanto não há crime.

    Acho que a questão central da educação em nossa existência é o quanto nos permitimos o desvio. O espírita autêntico, como você defende, prima pelo não desvio. Eu vejo como um paradoxo, porque nosso objetivo é alcançar esse estado de pureza, embora muitos de nós nem tenham ideia disso, e no entanto seja uma tarefa difícil de se cumprir, devido à nossa própria constituição imperfeita. Eu ainda estou cheio de imperfeiçoes, distante da grandeza que vislumbramos para o nosso espírito.




    DESONESTIDADE E ESPIRITISMO NÃO SE COADUNAM 

    O termo desonestidade é empregado para descrever os atos velhacos, a corrupção, a falta de probidade, a ausência de integridade, o mentir ou ser deliberadamente falaz. O mau caráter é adverso ao decoro; é indecente; é desonrado; é escandaloso e assim vai...
    A propósito, será que realmente somos honestos? Não somos mentirosos? Contemporizamos com a rapina, com as fraudes, a sonegação de impostos, a falcatrua. A rigor, ser incorruptível requer disciplina. Ser honesto demanda disciplina moral e ética, fadiga para abater más tendências, diligência por não se consentir desabar na perdição das trapaças.
    A desonestidade remete à fantasia instantânea de levar vantagem inescrupulosa, contudo certamente ficaremos a mercê da inevitável cobrança da consciência e não há como enganá-la. A consciência não se corrompe; nela estão assentadas as Leis de Deus, é ela que nos espicaça e traz a realidade das circunstâncias e atos que praticamos quando agindo de má fé, utilizando-nos da infeliz lei do proveito insensato.
    Quando alguma pessoa nos indaga se somos incorruptíveis, normalmente a indignação nos invade a mente, só em ajuizar que alguém hesite de que somos honestos. Muitas vezes nos pronunciamos honrados, mas será que verdadeiramente o somos a todo instante ou é só de fachada essa virtude?
    Se raspamos ou amassamos involuntariamente um automóvel no estacionamento, cujo dono não está presente, tendemos fugir do local, em vez de colocarmos um aviso do incidente, deixando nosso telefone num bilhete para contato. Quantos são os que não obedecem a ordem de uma fila dos bancos, cinemas, hospitais etc, e arquitetam  meios escusos para ocupar o local reservado aos que chegaram antes?
    Habituamos aquilatar negativamente assaltantes vigaristas, homicidas, encarcerados de penitenciária de forma geral. Todavia, será que fora das prisões há superávit de gente honesta? Quantas vezes compramos produtos de origem duvidosa para sonegarmos impostos? Quantas vezes devolvemos o troco que o caixa do supermercado nos deu a mais? Quantos mecânicos de automóveis, técnicos de geladeiras, de televisão, máquinas de lavar, de computadores, mentem para cobrar mais caro?
    Quantas vezes estacionamos na vaga de idoso ou deficiente sem sermos um idoso ou deficiente? Quantos usam de sua autoridade para anular multas de trânsito? Quantos bebem alcoólicos e assumem a direção de veículo nas estradas? Não assombra que administradores se apropriem das verbas publicas, e que empresários demitam para terem máximo lucro.
    Segundo estatísticas consagradas, o Brasil é um dos países campeões mundiais em corrupção, fazendo associação a determinados países africanos diminutos. Que tipo de ambição exorbitante e estúpida está na base da deficiência de caráter capaz de olvidar todos os escrúpulos para com a consciência e arremessar-se tão sagazmente no cofre do Estado? Não somos o primeiro, o único ou o último a anunciar esse séquito de vícios, contudo a mídia, frequentemente, noticia e expõe tais fatos francamente execráveis e com grande repercussão negativa.
    Algumas vezes pronunciamos da tribuna que o verdadeiro espírita é honesto em tudo que faz. Se for presidente de uma casa espírita, precisa apresentar as movimentações financeiras aos frequentadores. É indispensável haver transparência na prestação de contas, mensalmente, com os contribuintes da casa espírita. Cremos que é simples obrigação afixar, no “quadro de avisos” ao público, a comprovação da correta aplicação dos recursos recebidos. Os dirigentes que assim procedem veem patenteadas a credibilidade da instituição que administram e a pureza de suas intenções.
    Quando os dirigentes são omissos e não prestam contas, é evidente que ficamos atônitos e envergonhados, principalmente quando sabemos, pela imprensa, que algumas instituições "filantrópicas" desviam recursos, emitem recibos forjados de falsas doações, deixam de pagar impostos etc...
    É imperdoável haver instituições que recebem, à guisa de doações, roupas, calçados, alimentos, eletrodomésticos etc, e os administrantes se apropriem delas. É irredimível existir instituições que aceitem doações, até de objetos valiosos, e seus diretores se apropriem das melhores peças antes de os exporem em bazares ditos "beneficentes".
    A prudência continua sendo a nossa melhor conselheira. Por questão de consciência ética, sabemos que um autêntico espírita tem que ser fiel aos princípios que a Doutrina dos Espíritos impõe e ter noção de que honestidade é prática obrigatória para todo ser humano, sobretudo para um cristão. Ou será que devemos reivindicar pedestais nos panteões terrenos por executarmos dignamente aquilo o que é nossa obrigação fazer? É imperiosa a quebra de valores invertidos, com o banho de ética, com a recuperação da honestidade.
    Na condição de espíritas cristãos, sabemos que, para a consubstanciação da "Pátria do Evangelho", será imperativa uma renovação mental e comportamental urgente no País. Se quisermos viver um panorama social harmônico, devemos nos empenhar para promover uma reforma ética generalizada, entronizando a força da integridade moral.
    Jorge Hessen
    http://jorgehessen.net