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  • 13 de jul de 2009

    8 (OITO) ARTIGOS DE MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA




    OS OLHOS AZUIS DE JESUS:
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga
    Passeando pelas lojas do Shopping Center, observamos várias telas representando a figura de Jesus. Nas revistas do jornaleiro, na locadora, várias representações de Jesus. Em todas essas imagens observamos os olhos azuis de Jesus... Sim, o mestre é geralmente representado nas diversas situações pertencente a uma etnia europeizada, com belos olhos azuis. Que segredos se escondem por detrás desses olhos?
    Não existem segredos e códigos ocultos nesses olhos. O que a princípio parece uma questão da forma, traduz conteúdos ocultos que se irradiam sobre outros posicionamentos na questão religiosa que adotamos. Que no local onde Jesus nasceu, a Palestina, a parecença européia não seria possível, isso é óbvio. Até por que se ele fosse tão diferente assim (Como um oriental nascido no seio da África pré-colonização), esse fato seria citado ao longo dos escritos sobre a sua vida. Hoje observamos que Jesus se fez diferente por outros motivos... Mas, no processo histórico de consolidação do cristianismo, como supor que o Senhor dos Exércitos poderia se assemelhar aos povos tidos como inimigos? Como crer que nos dois mil anos de cristianismo, onde a religião perseguida sobe aos píncaros do poder, estimulando guerras e invasões, que o Cristo fosse representado por pintores e escultores em expressão diferente da beleza clássica tão exaltada?
    Passaram-se os séculos e a sociedade ocidental imortalizou a figura de Jesus com seus traços nórdicos principescos, na cultura valorizada pelos dominantes e vencedores, depois colonizadores dos países hoje fortes no cristianismo. Das "fantasias , das ficções e das deformações que nos foram impingidas pelos que se dedicaram , no passado, a inglória tarefa de utilizarem-se do Cristo como peça importante no tabuleiro de suas paixões, no qual disputam as maiores fatias de poder transitório" (MIRANDA, 1998,p. 43) surgiu a representação gráfica do Cristo que vemos estampada por aí, carregada da influência dessa idéia Clássica do renascentismo.
    Esses atavismos, imbricados de pensamentos ingênuos e ainda presentes, como os que pensam que o espírito vestido de branco é um espírito de luz, ou que a beleza física exterior é sinal de evolução espiritual, pois é uma beleza angélica (Anjos loiros e de olhos azuis como nos afrescos renascentistas), trazem conseqüências muito mais profundas para a nossa vivência evangélica do que possamos imaginar. Essa lógica da forma predominante rejeita a lógica de valorizar o espírito e a essência. Não podemos nos esquecer de que a roupagem carnal é instrumento para a nossa evolução, conforme apresentado no planejamento da encarnação de Segismundo no livro "Missionários da luz" de André Luiz, e não reflexo de nossos dons espirituais.
    A beleza é culturalmente relativa, como comprovam os estudos antropológicos, e a etnia é parte da nossa roupagem com relativização de sua importância no tempo e no espaço. Nascer negro no período da escravidão é diferente de nascer negro na África dos dias de hoje, em termos de provas e vivências. Essa diversidade é ferramenta de crescimento e evolução e após séculos, vivemos hoje dias de maior tolerância e compreensão das diferenças, e pelo menos no discurso as pessoas estão valorizando a nossa essência comum.
    Quando no Capítulo II de "O Evangelho segundo o espiritismo", Allan Kardec e os espíritos superiores falam da realeza de Jesus e do ponto de vista, torna-se claro que a ótica que as questões devem ser observadas é a ótica da vida espiritual. Jesus não era o Rei que todos esperavam e esperam, assim como os valores da vida não são os que valorizamos... Nesse balaio se ocultam conceitos elitistas e salvacionistas que contrariam a lógica da reencarnação e da prática do bem. Essa deve ser a ótica da nossa vida como espírita. Se procurarmos valorizar os "olhos azuis" em detrimento dos "olhos do espírito", serviremos sempre as realezas terrenas, desprezando os valores espirituais. Valorizaremos os "mega-eventos", os confetes e os holofotes, esquecendo os dividendos no campo espiritual. Não há beleza maior que o amor. O formato é do campo do mundo terreno, servindo tão somente para a transformação dos espíritos, da essência.
    Se os "Olhos de Jesus" eram azuis ou castanhos, negros ou verdes, isso não importa. Tanto que esse dado não se perpetuou nas passagens evangélicas, ainda que tenhamos a necessidade de representar Jesus graficamente. Esses olhos que nos observam permanentemente, com certeza são olhos cheios de um amor incomensurável para os nossos padrões terrenos. São olhos que se enchem de lágrimas quando tratamos uma pessoa pela sua aparência e gastamos a nossa energia em atividades voltadas apenas para o exterior. São olhos firmes que enxergam apenas o espírito endividado que somos, mas que com certeza está fadado acertar nessa nova oportunidade bendita.
    Terminamos com a lição do espírito André Luiz, no final do capítulo X da magistral obra psicografada pelo saudoso Chico Xavier , "Libertação", onde a bela mulher encarnada acompanhada de obsessores ao sair do corpo físico pelo sonho mostra aparência perispiritual tão aterradora que assusta até seus algozes. Lição válida e atual em dias onde a beleza e a aparência tem ocupado cada vez mais as nossas mentes em suas nuvens de transitoriedade. Lição válida para que não olvidemos Jesus, que sempre falou da beleza eterna, da beleza da alma humana, criada a "imagem e semelhança de Deus".
    Bibliografia:
    1. MIRANDA, Hermínio C. de- Cristianismo: A mensagem esquecida.- Editora O Clarim- Matão, SP- 1998
    2. KARDEC, Allan- O Evangelho segundo o espiritismo- FEB, Rio de Janeiro-1993
    3. KARDEC, Allan- Obras Póstumas- FEB, Rio de Janeiro-1993
    4. XAVIER, Francisco Cândido- Libertação- FEB, Rio de Janeiro, 1984.
    5. XAVIER, Francisco Cândido- Missionários da Luz- FEB, Rio de Janeiro, 1990.
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com

    Os "ismos":
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga
    O ano de 2007, além da realização do Pan-Americano nas terras brasileiras, fato que tem merecido maior destaque na imprensa, se notabiliza por outras datas relevantes, que apesar da sua divulgação ter sido mais segmentada, são datas de extrema relevância para aqueles que acreditam em um mundo melhor.
    Passados exatos 150 anos do lançamento de "O livro dos espíritos", marco do espiritismo moderno, onde um professor chamado Hipolite Leon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, viabilizava ao mundo o opúsculo que trouxe uma nova visão da existência, codificado pelos espíritos que desde os tempos remotos se manifestavam no plano terreno. Neste mesmo ano, nascia Robert Stephenson Smith Baden-Powell, idealizador do escotismo, que em 1907, passados exatos cem anos, teve a sua gênese com o Acampamento da Ilha de Brownsea, Inglaterra, primeiro acampamento escoteiro mundial.
    Eventos diferentes, ocorridos na mesma Europa, mas que trazem em si semelhanças que nos valem ser lembradas neste ano de 2007. O espiritismo, doutrina libertadora de consciências, veio como uma resposta a ascensão da ciência tomando o lugar do Deus absolutista, confundido com o estado, ciência esta que destruiu o aspecto espiritual do ser humano pelas mazelas do materialismo. O espiritismo permitiu que, apesar do avanço da ciência, a fé permanecesse viva, de forma inabalável, e que os valores da caridade e da humildade tivessem espaço no novo mundo do reinado do saber. O escotismo, por sua vez, foi à resposta pedagógica de um mundo que se industrializava, que perdia o contato cotidiano com a natureza e seus valores, permitindo aos jovens desenvolver virtudes e habilidades no contato com os elementos simples do mundo natural, da vida cotidiana em grupo, com uma visão sadia da competição.
    Dois remédios para o mundo em ebulição pós Revolução francesa e Revolução industrial, eventos ainda em digestão pela humanidade. Estes remédios resgataram os aspectos de espiritualidade, ainda que em sentido diferente, do ser humano. Dois momentos de proteção a valores que pela força das circunstâncias, se faziam ocultos, em um mundo que caminhava para a urbanização, para a crescente demanda da industrialização e pelo sonho da Democracia nascente, herdada dos gregos antigos.
    De lá para cá, muitos outros fatos ocorreram. Duas guerras que transformaram as fronteiras e a hegemonia no mundo, uma "guerra fria" instalou o medo dentro de cada coração humano e outras revoluções tecnológicas tornaram os sonhos de ficção do homem em realidade e fizeram cair por terra qualquer chance de pensar o futuro, na incerteza pós-moderna.
    Esse admirável mundo novo ainda necessita muito da mensagem desses "ismos"... O escotismo, associado aos valores e as questões ambientais, desperta no jovem os sentimentos de fraternidade, da boa-ação, do amor a natureza e da disciplina, tão esquecidos no consumista mundo do individualismo e do relativismo absoluto. O espiritismo, este é a candeia que nos guia no mundo assaltado pela ciência galopante, onde a religião, perdida entre a política e os interesses, precisa aumentar o número de homens de bem, os seguidores do cordeiro, independente da denominação. Um caminho de vida, que permite ao jovem trilhar uma encarnação pautada no amor ao próximo e no culto da virtude
    Dois marcos para a humanidade que comemoram neste ano de 2007 datas significativas para sua existência. Dois movimentos atrelados a um ideal de um mundo melhor, mais humano, mais fraterno. Mas, acima de tudo, dois contrapesos para dilemas que a humanidade se defronta, diante das doenças da desigualdade, do individualismo, do consumismo, que corroem a nossa sociedade, como constatamos nas tristes notícias de jornal envolvendo a juventude. Apoiar esse e outros ideais sadios, que construam valores para as gerações vindouras é mais que uma opção, é um dever que se impõe a nós, cristãos, seguidores de um pobre carpinteiro, que na Galiléia iniciou um movimento de pessoas que pregava simplesmente o amor ao próximo. E mudou o mundo.
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com


    MANTRA
    MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA
    Em um culto religioso de raízes Afro-Brasileiras, todos os presentes entoam um ponto de determinada entidade, aguardando no decorrer daquela ladainha a manifestação daquele espírito.
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    Em uma prática originária da índia, fiéis entoam repetidas vezes o mantra "Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare"
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    Em uma igreja católica, fiéis seguram fervorosamente o terço nas mãos, rezando repetidas vezes a oração do Pai-Nosso e a Ave-Maria, na busca de completar o rosário.
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    Em uma tribo de índios do Alto Xingu, antes do ritual religioso, os indígenas entoam cantos repetitivos relembrando os espíritos de seus antepassados.
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    Na modesta casa espírita, antes da prece de abertura da reunião, um Jovem da mocidade com o violão promove a ambientação com suave melodia acompanhada por todos os presentes.
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    O que teriam em comum essas manifestações religiosas diversas na busca de sintonizar com o seu conceito de "Plano espiritual"? Seria um ritual exterior ou existe nessas práticas uma explicação do nosso processo de de sintonia com o "alto"?
    Na oração em suas múltiplas manifestações no decorrer dos séculos e culturas, a sintonia com o alto nem sempre foi valorizada por ser expressão do sentimento, mas por muitas vezes pela quantidade de repetições ou pela emissão de determinada expressão sagrada. "Nenhum sinal cabalístico ou palavra sacramental tem efeitos sobre o espírito e sim o pensamento", como afirma peremptoriamente a pergunta de número 553 de "O Livro dos Espíritos". Porém, o fato de ser decorado ou repetido, não implica necessariamente em ser um ato mecânico ou ritualístico. Como a religião é uma expressão da cultura de um povo, geração a geração o indivíduo vai aprendendo e modificando a sua forma de relação com a divindade através da oração, buscando colocar a emoção e o fervor que lhe demanda aquele momento. Lembre-mos que o Pai-Nosso surgiu quando perguntaram a Jesus como rezar... Um pouco de psicologia nos ajudará a entender esse processo.
    As experiências do Famoso pesquisador Russo IVAN PAVLOV (1849 – 1936), que foi o percursor da teoria behaviorista da psicologia, demonstrou a existência no seres vivos de um reflexo condicionado aos estímulos, o famoso reflexo condicionado, ao realizar uma experiência simples. Ao alimentar um cão confinado, antes de servir a refeição acendia uma luz. Após vários dias repetindo esta prática, ao acender a luz o cão já salivava, preparado para receber o alimento. Ou seja, mediante um estímulo exterior (A luz), o seu organismo reagia para o ato que ele fora condicionado. Essa relação de condicionamento se reflete nos nossos processos mentais, como bem apresenta o espírito André Luís no livro "Mecanismos da Mediunidade", psicografado por Francisco Cândido Xavier, demonstrando que os estímulos externos na criatura humana, ainda presa a realidade terrena, fornecem mecanismos de indução mental, de sintonia de nosso pensamento.
    "Uma conversação, essa ou aquela leitura, a contemplação de um quadro, a idéia voltada para certo assunto, um espetáculo artístico, uma visita efetuada ou recebida, um conselho ou uma opinião, representam agentes de indução, que variam segundo a natureza que lhes é característica, com resultados tanto mais amplos quanto maior se nos faça a fixação mental ao redor deles. ( André Luís Apud XAVIER, 1991, p. 94)".
    Ou seja, a nossa relação com o mundo é uma relação de nossa vontade e os estímulos que recebemos do mundo material e espiritual. Seja a influenciação dos encarnados, desencarnados ou do ambiente.
    Resgatado as idéias dos psicólogos interacionistas, como o famoso Jean Piaget, utilizaremos os conceitos do redescoberto psicólogo Russo L.S. Vigotzky, quando ele apresenta a nossa relação de apreensão da realidade como uma relação mediada por signos e instrumentos, onde para que esses estímulos sejam melhores apreendidos, eles sejam significados por um elemento mediador. Ao longo do processo de maturação do indivíduo (e das coletividades), este processo vai se internalizando, onde os signos exteriores não são mais necessários, sendo substituídos por signos internos.
    O processo pelo qual o indivíduo internaliza a matéria-prima fornecida pela cultura não é, pois, um processo de absorção passiva, mas de transformação, de síntese. Esse processo é, para Vigotzky, um dos principais mecanismos a serem compreendidos no estudo do ser humano. É como se , ao longo de seu desenvolvimento, o indivíduo " tomasse posse" das formas de comportamento fornecidas pela cultura, em um processo em que as atividades externas e as funções interpessoais transformam-se em atividades internas, intrapsicológicas.(OLIVEIRA, 2001,p. 38)"
    Em um dizer mineiro, vamos explicar melhor esse trem: Os objetos e pessoas, ou seja, o ambiente, interagem conosco ao longo da nossa história, onde nos modificamos e modificamos o mundo a nossa volta. Esses estímulos do ambiente, se vinculados a signos, são melhores apreendidos por nós, através da mediação. Como uma criança que colore as teclas do piano para identificar melhor as notas. Com o tempo, abandonamos as dependências desses signos, pois eles vão se internalizando, transformando-se em referências internas.
    A nossa relação com o processo de comunicação com a divindade segue essa lógica também, onde as pessoas e grupos religiosos necessitam de signos que ativem aqueles mecanismos de condicionamento que as desliguem do mundo exterior e suas preocupações e em um dizer jungiano, as remetam para a vida simbólica, interior, onde é conectado o canal com a divindade. Com o tempo nós vamos internalizando esse processo com muita meditação e reflexão. Entretanto, alguns se acrisolam mais no signo do que na divindade.
    No mundo material, onde vivemos lutando pela sobrevivência, pelos bens materiais necessários, exigir das civilizações essa sintonia com a divindade imediata, como o desligar de uma chave ON-OFF, seria impossível. Com o passar dos tempos, foram sendo criadas culturalmente artifícios para esse processo que similar ao "transe", permita a criatura olhar para seu mundo interior. A ladainha repetida condiciona a mente a sintonizar com aqueles momentos de reflexão anteriores, ajudando a fixar na idéia nova, auxiliando a romper com o mundo físico. Quantas vezes, incluindo nas atividades de desobssessão, utilizamos da mentalização de imagens e frases na busca de romper uma idéia fixa e empedernida? A mentalização é parte desse processo de introjeção desses signos. Infelizmente, muitos se utilizam desses mecanismos em artifícios de sugestão hipnótica e dominação, sejam estes encarnados ou desencarnados.
    "Em toda a parte , desde os amuletos das tribos mergulhadas em profunda ignorância até os cânticos sublimados dos santuários religiosos dos tempos modernos, vemos o reflexo condicionado facilitando a exteriorização de recursos da mente, para o intercâmbio com o plano espiritual. ( André Luís Apud XAVIER, 1991, p. 94)".
    Não se traduzem então essas manifestações em meros rituais mecânicos (Como por vezes generalizamos), onde com certeza o sentimento, a vontade e a reflexão poderiam estar presentes, determinando o processo de sintonia com o plano maior. Cada religião desenvolveu seus mecanismos de sintonizar a mente dos seus fiéis, repletas de preocupações com o mundo material, com o Plano espiritual. Curiosamente, o fato da prece ser expontânea, não traduz necessariamente que a mesma esteja permitindo a sintonia com as forças maiores, bem como o fato do indivíduo buscar na sua religião um artifício para sintonizar a sua casa mental com os espíritos amigos não implica em um ato mecânico. O fator determinante desse processo não é externo e sim interno. A fé, aquela que Jesus nos advertiu pela falta dela, que nos permite essa sintonia. Muitas vezes mascaramos a nossa espontaneidade em atos mecânicos e que não são repetitivos.
    "Vemos instituições respeitáveis , nas quais um outro tipo de ritual, mesmo onde se diz detestá-lo, vai tomando corpo e devorando a espontaneidade: é o formalismo, que poderíamos também chamar de indiferença e desamor.( MIRANDA Apud FRANCO, 1991, p.152)"
    Por vezes nos preocupamos com repetições e na perseguição do que é ritual, quando o formalismo demonstra grandes doses de mecanicismo e frieza nas nossas atitudes, desligando a nossa essência da divindade, ainda que a retórica da prece seja magnífica.. Devemos entender que na obra divina tudo é um processo, pois "ninguém chega ao cume de um monte sem vencer o vale e as anfractuosidades da rocha, no esforço de ascender (MIRANDA Apud FRANCO,1991, P.25)", e que na contabilidade divina o entendimento da criatura é sempre um dado computado na avaliação das questões. As obras espíritas, principalmente de André Luís, são fartas de orações luminosas em ambientes ritualísticos. O fato da forma não atrair os espíritos não implica que não haja sentimento e fé nas manifestações ritualísticas. Deus não desampara os que pedem com fervor e merecimento...
    Posto isso, amigo, quando na visita fraterna aos enfermos estes pedirem humildemente que seja rezado o "Pai-Nosso", por serem a única oração que conhecem, vamos fazê-lo com fé e emoção remetendo aquele momento do sermão da montanha onde Jesus proferiu aquelas palavras. Antes de realizarmos uma linda prece , verifiquemos se aquelas palavras saem de nosso coração e que os "canais estão abertos" para a sintonia com o criador. E se após o dia na defesa do pão material na labuta diária, na reunião pública da casa espírita necessitarmos de uma canção para harmonizar o ambiente, que seja cantada remetendo a nossa mente para as boas imagens e boas idéias, elementos que serão utilizados pelos espíritos que trabalham na reunião. O ritual é uma questão íntima...O próprio Kardec apresentou sugestões de preces, ciente de nossas dificuldades de abstrair o plano material.
    A vida verdadeira é a vida espiritual e não queremos retornar as repetições contemplativas e punitivas de tempos passados, elementos de dominação e escravização do pensamento. Mas, na obra da divindade, nada é em vão e essas repetições permitiram e ainda permitem, nos momentos de dor e louvor, ligar a criatura a Deus. E nós, encarnados como somos, ainda não dispomos dessa "internalização" completamente. Mas, chegaremos lá...
    Bibliografia:
    1. FRANCO, Divaldo Pereira- Manoel Philomeno de Miranda (Espírito)- Loucura e Obsessão- Rio de Janeiro, FEB-1991.
    2. KARDEC, Allan- O Livro dos Espíritos- Rio de Janeiro, FEB-1993
    3. OLIVEIRA, Martha Kohl de- Vigotzky, aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. 4° Edição . São Paulo . Editora Scipione - -2001
    4. XAVIER, Francisco Cândido- André Luis (Espírito)- Mecanismos da Mediunidade- Rio de Janeiro, FEB, 1991.
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com




    MÁGICO NÃO É SOBRENATURAL
    "A sorrir, eu pretendo levar a vida...
    Pois chorando eu vi a mocidade perdida"
    (Cartola/Elton Medeiros)
    Em um dos meus raros momentos de meditação, onde sob a luz da penumbra eu ligo o som e fecho os olhos, envolvido em lembranças, lembrei dos meus tempos na Juventude espírita, na nossa grande "Mocidade Mariana" no Centro Espírita de Jacarepaguá. Lembrei-me dos domingos ensolarados em que encarávamos um condomínio de prédios na árdua Campanha do Kilo, das idas a comunidade carente do "Canal do Anil", onde evangelizávamos as crianças. Ainda lembro os nomes : O Zequinha, o Quequé, o Luciano...Como eram bons aqueles domingos em que íamos cantar e discutir a beira do canal com aquelas crianças as alegrias do Evangelho.
    Bem verdade tínhamos grandes dirigentes e naqueles momentos de dúvidas e revolta, encontrava sempre neles o ombro amigo. Amigos, fizemos bastante, no convívio na luta, com a confraternização no Culto no Lar mensal e nas festas de aniversário surpresa. Fazíamos também grandes festas para arrecadar recursos para as atividades junto às crianças. Estudos, conduzíamos com empolgação e pesquisávamos a fundo a doutrina espírita para elaborá-los. Em uma atitude pioneira, a coordenação da mocidade nos colocou para proferir palestras nas reuniões públicas da casa periodicamente. Imagine, um jovem de 16 anos subindo tribuna e seus amigos lá assistindo, vibrando por ele...
    É, me lembrei disso tudo e vi que havia um "quê" de mágico, um quê de uma lembrança muito boa armazenada lá no perispírito. Sim, não nos preocupávamos com o novo modelo de carro ou com quanto ganharíamos no nosso futuro emprego. Queríamos um mundo melhor e isso era de uma magia fascinante!
    Falei dessas mágicas lembranças para lembrar também que hoje essa magia se perdeu...Deve estar apenas nas páginas de "Harry Potter" ou do "Senhor dos Anéis". Parece papo de velho, né? Seria bom que fosse, mas o convívio com a geração nova que tive mais amiúde em atividades do campo profissional me mostraram outras preocupações: Sensações, emoções, conhecer novos lugares, prazer, quanto eu vou ganhar nessa profissão, qual a profissão que eu não faço nada, como eu faço para ser feliz...O individualismo se alojou de tal forma nessa geração que esvaziou tudo. Quando visito os trabalhos assistenciais, vejo aquela "moçada" de antes que já não está tão moça assim. Na casa espírita que eu acordava cedo no domingo de manhã, vejo jovens chegando contrariados e alguns até obrigados, fazendo com que dirigentes mais incautos usem artifícios como festas e passeios para trazer o jovem para a casa. Motivações enganosas não conquistam corações e mentes. O jovem, destemido e questionador, cede lugar a um tipo mais acomodado e individualista. Claro, falo de generalizações, onde conhecemos sempre exceções. Como pela minha profissão eu me mudo sempre, colhi vários cenários para exemplificar do que falo.
    Será que não preparamos essa geração direito? Foi a tecnologia? O espiritismo já não está atendendo as expectativas deles? Onde foi que erramos?
    Sinceramente, acho que não erramos em nada, ou quase nada, para não ser prepotente. Acho que o mundo também está envolvido um pouco nessa onda e estamos com um problema de referencial. As mudanças ciclópicas no nosso modo de vida e nos nossos valores ainda não foram totalmente digeridos e essa transição "pós-moderna" favorece ao medo, ao individualismo e a busca incessante de conforto, ao invés do confronto. O amor ao próximo, o próximo mais próximo, esse está caindo de prioridade. Como dizia uma letra da década de 80, está Démodé.
    Essas não são questões fechadas e sim questões para a meditação e a ação. Você, caro amigo, também acha que essas coisas são reais? A juventude está passando realmente por este processo? O que podemos fazer? Vamos pensar! Afinal, a sorrir eu pretendo levar a vida...
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com


    LOUVAÇÃO
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga
    A palavra louvor tem na sua acepção associados os verbos elogiar, exaltar, glorificar e vangloriar. São atos que conduzem a divulgação de virtudes ou atos valorizados por um determinado indivíduo ou grupo. A palavra louvor tomou no sentido religioso da expressão "Louvar a Deus" um sentido próprio, onde através de cantos, orações e cerimônias, diversas denominações religiosas no decorrer da história renderam graças as suas divindades, com motivações que passam do escambo ao medo e do orgulho a fé.
    O livro dos espíritos trata da Lei de Adoração, onde poderíamos classificar o louvor como um dos aspectos exteriores dessa adoração, ou seja, dessa relação do indivíduo com a divindade. Jesus já nos falava dessa questão, ao nos apresentar a parábola do publicano e do fariseu, que exemplifica a relação do homem com as forças maiores.
    A adoração entendida como elevação do pensamento a Deus, onde a criatura reconhece a grandeza do criador e com ele cria um elo de ligação e de afinidade, conforme nos apresenta as declarações dos espíritos, fazem do conceito de louvor um pouco diferente do habitualmente aceito. Mas, às vezes não percebemos essa mudança de paradigma...
    Nosso entendimento do criador deve abandonar de vez resquícios antropomórficos e se falamos em exaltar e glorificar, não será no sentido da lisonja, pois essas querelas do espírito encarnado não se aplicam a Deus. O exaltar não é para exaltar a divindade e sim no sentido de individual ou coletivamente demonstrar a valorização dos sentimentos que emanam de Deus. O louvor vivo deve ser sempre associado à ação no bem, como corrobora a pergunta n°654 de "O livro dos espíritos": " Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal". Francisco de Assis na idade média teve seu insight fundamentado nesta questão.
    Sem fórmulas ou ritos especiais, a pedra de toque é o sentimento puro, a emanação que permita a criatura sintonizar com o criador, independente de fatores sociais, geográficos ou étnicos. A oração como forma mais consagrada de louvor é onde a criatura se liga a fonte criadora, como o raio de luz que atinge as plantas que vivem no fundo do oceano.
    Essa mudança no paradigma é importante para a condução do nosso cotidiano, onde preocupados com aspectos exteriores, vivemos presos ainda a idéia de agradar a Deus. Essa carga atávica é muito forte, pois foram séculos da figura divina sectarista do "Senhor dos exércitos". Agradar a Deus é lembrar as palavras de Jesus, quando diz: "Quando fizerdes a um destes pequeninos, é a mim que fazes". Qualquer outra parafernália pode se transformar em instrumento de prepostos que se arvoram a ser Deus com seus caminhos exclusivistas, na longa sina da dominação do homem pelo homem, utilizando entre outros sistemas a religião.
    Cantar, orar, louvar, agradecer... Verbos que se "recheados" de sentimento puro, exprimem a nossa comunhão com o mais alto. No momento do testemunho, o pedido. No momento da alegria, o agradecimento. O espiritismo vem acrescentar a esse binômio com a pergunta n°654 de "O livro dos espíritos" um terceiro vértice: O louvor. Louvar a Deus sim, de forma sincera e coerente, no amor as criaturas e ao nosso próximo. Somente com esse louvor sincero e construtivo, integrado e interdependente, construiremos a fé nos testemunhos e a sabedoria nos peditórios. Exaltar o bem é repeti-lo, exemplificá-lo, valorizá-lo. O bem n pode ser tímido...Se algum aspecto formal assumir valor maior no nosso louvor, as expensas de agradar ao nosso Pai, lembremos que o maior exemplo que esse Pai nos enviou nasceu em um humilde estábulo, e que na hora de ensinar a rezar o "Pai Nosso", cercado do povo, lembrou-nos de "santificar o vosso nome, assim na Terra como no céu".

    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com



    VERDADEIRAS FORMIGUINHAS
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga
    Fruto de compromissos profissionais, já vivi com minha família e visitei várias cidades do Brasil e do exterior, onde consequentemente freqüentei ou apenas visitei diversas casas espíritas. Apesar de ter visitado algumas em viagens curtas, essa diversidade permitiu-me um grande enriquecimento na minha visão sobre o movimento espírita. É fato, a adaptação a nova casa sempre gera adaptações, pois geralmente não conhecemos ninguém. Mas, como o Kardec é o mesmo, com o tempo as coisas se acertam.
    Em especial, nessas casas que visitei e freqüentei, vi trabalhadores (as) espíritas que eram verdadeiras formiguinhas.Com uma invejável (diria inveja em um sentido positivo) disposição para trabalhar pelo semelhante, para esses não havia chuva e nem sol, feriado ou final de semana, e para algumas destas, nem doença. Estavam lá, voluntariosas e prontas para pegar a "charrua" e não olhar para trás. Conhecendo-as mais amiúde, descobri que todas tinham seus problemas de ordem pessoal, suas agruras e decepções. Muitas dessas dores por vezes ultrapassavam as dos ditos assistidos.
    Com essa dedicação e entusiasmo idealista, arrastavam grupos inteiros, com seu olhar de crença que algo podia ainda ser mudado para melhor. Não tinha pretensão ao destaque ou a evidência, pois nas palavras de Chico Xavier, buscavam na Casa Espírita encargos e não cargos. Considero-me um privilegiado pelo convívio com esses heróis anônimos do cotidiano espírita, que não terão seus nomes citados nessas linhas, mas na lembrança dos muitos que desfrutaram o seu convívio. Aliás, não é necessário citá-los, pois ao chegarmos na casa espírita logo os reconhecemos. Como disse um velho amigo, "são como lata de leite em pó. Você tira o papel da embalagem, mas fica ainda a marca".
    A física nos ensina que todo corpo tem seu centro de gravidade . Nos trabalhos que participei, vi nesses confrades o ponto de apoio encarnado dessas tarefas. Mas cabe lembrar que todo aquele que carrega um grande fardo nos ombros, precisa de um amigo para lhe secar o suor da fronte. Nossas valentes "Formiguinhas", quando diante da prova mais forte, são as vezes abandonados pelos amigos. Não podemos esquecer a dimensão humana desses nossos companheiros, que carecem por vezes do nosso bom ombro amigo. Como a pequena formiguinha, são fortes, mas também são frágeis...
    Por isso, estimado confrade, formiguinha ou não, ao identificar os pilares encarnados na tua tarefa espírita, exemplos de determinação pela causa do Cristo, não te esqueças de olhar o espírito imortal diante de ti, que também é nosso irmão de luta, cuja responsabilidade de amar o próximo é idêntica a nossa, e apesar do comprometimento que nos inspira, necessita por vezes da nossa palavra fraterna para seguir adiante.
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e frequenta o Grêmio Espírita Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com

    ARTIGO
    ENCONTRO DE JOVENS
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga
    " Sem boa semente, não há boa colheita"
    André Luis no Livro Conduta Espírita
    1. A pergunta:
    Indagado as vésperas do feriado de Carnaval por um amigo das lides profissionais sobre como eu empregaria os dias de Momo, respondi que iria a um encontro de Jovens. A curiosidade do meu interlocutor não se conteve e este perguntou o que fazíamos nestes encontros... Como o tempo era escasso (normal no cotidiano profissional), falei que ficamos em um espaço, no caso uma escola (No meu caso particular, a Confraternização de Mocidades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro-COMEERJ-Polo Petrópolis, evento na sua 26°Edição em 2005, envolvendo mais de dez mil pessoas no estado), cantando, estudando e orando. Diante desta minha definição simplista, o amigo pensou que aquilo era "coisa de maluco". Manter mais de uma centena de jovens em um colégio rezando e cantando em pleno Carnaval, é inconcebível... Tive que ouvir essa. Motivado por esta situação e por outras semelhantes que vivenciei nesses mais de dez anos nesse encontro no Carnaval, decidi por escrever essas linhas para meditarmos sobre a importância dos encontros de jovens no âmbito do movimento espírita.
    2. Os encontros:
    Os encontros de jovens não são exclusividade do movimento espírita, sendo uma manifestação comum em outras denominações religiosas. São espaços de reflexão coletiva, de vivência de valores através de atividades pedagógicas e artísticas, buscando também a confraternização entre os jovens, em momentos significantes para fortalecer a presença da doutrina espírita por toda a vida daqueles espíritos encarnados.
    O encontro, no caso a COMEERJ tomada como exemplo, é aguardada com ansiedade pelos jovens e existem amigos que os jovens só vêem nesses encontros. Bem verdade, alguns sólidos casamentos surgiram de amizades desse encontro, bem como amizades sólidas que articularam importantes trabalhos no movimento espírita. Infelizmente, por vezes essa intensa movimentação passa no ostracismo pela casa espírita.
    3. O jovem e a casa Espírita:
    Para o movimento espírita das mocidades, esses encontros são fundamentais, pois grandes valores e ideais de vida são sedimentados na juventude. Não podemos nos esquecer também que naqueles encontros estão às gerações vindouras do espiritismo e que nos momentos vibrantes dos encontros é que se constrói uma relação marcante daquele jovem com a doutrina espírita e conseqüentemente com a casa espírita.
    Por vezes, os pais se vêem muito envolvidos com as atividades da casa espírita, atividades que podem estar roubando os pais do convívio com o adolescente, que hoje tem também uma vida muito atribulada, estabelecendo-se aí uma relação de disputa do adolescente com a casa espírita. É a nossa eterna busca por "cargos" e não por "encargos". . O encontro de jovens é a "pedra de toque" que atinge o coração muitas vezes rebelde do jovem, integrando ele na casa com o apelo do sentimento.
    As casas espíritas precisam descobrir o jovem. Muitas atuam ainda como se o jovem fosse ainda aquele que é lembrado apenas para carregar mesas no almoço beneficente da casa. Pergunto-me se não é por que geralmente a reunião dos jovens é no Sábado à tarde ou Domingo de manhã, quando só tem essa reunião na casa? Já soube de casas espíritas que experimentaram de forma bem sucedida: Nas palestras da reunião pública colocaram como oradores jovens de 16/18 anos da Mocidade, em meses específicos e sobre temas da mocidade. Além de ter atraído os jovens da mocidade para a reunião pública, para prestigiar os seus amigos, mais da metade desses jovens que participou deste projeto tornou-se no presente expositor da casa, nos diversos lugares que a vida lhes encaminhou. É preciso criar a oportunidade e o encontro favorece essa oportunização.
    4. O protagonismo:
    No encontro de jovens, estes protagonizam ações em um micro-mundo aonde a doutrina espírita vai fazendo cada vez mais parte de sua vida. É como um gigante psicodrama em quatro dias, uma imersão total naquele mundo com outros valores e outras propostas. O processo de amadurecimento ali no encontro ajuda a romper aquele jovem muitas vezes ácido e crítico, direcionando essa energia de forma construtiva para a esperança de um mundo melhor, onde ele tenha voz e vez. Coleciono exemplos de vários daqueles coordenadores de estudo de encontros que eram em um passado bem recente jovens confraternistas ativos e protagonistas, participando dos encontros. Esse jovem que "ganhamos" será o futuro trabalhador da casa, como também nos atesta a prática.
    Poderiam alguns argumentar que o encontro de jovens é uma atividade pontual. Isso é verdade... Mas, essas atitudes pontuais revelam mudanças processuais, em um dizer matemático, um verdadeiro ponto de inflexão. O encontro de jovens não é um retiro onde se busca o isolamento do "mundo lá fora" e sim um instrumento de fortalecimento para o nosso enfrentamento como cristão desse mundo.
    5. O perfil da equipe
    A disciplina também é fundamental para o sucesso de qualquer encontro com tantos jovens. Mas, essa disciplina somente será efetiva se houver diálogo e o exemplo. A palavra "orientar" deve suplantar a palavra "vigiar", cabendo as casas espíritas que enviam estes jovens avaliar criteriosamente o perfil e a maturidade deste jovem, pois um jovem em pleno estado de desequilíbrio atrapalhará mais do que será ajudado.
    O mesmo sentimento vale para a equipe da coordenação, onde pessoas maduras e com desejo sincero de trabalhar operarão grandes feitos. Entretanto, o estrelismo, a falta de tato com o jovem e a falta de espírito fraterno pode contribuir para tornar o encontro uma grande decepção com o próprio espiritismo.
    6. O potencial artístico:
    Uma outra questão nos encontros de jovens é o uso de expressões artísticas, como a música e o teatro. Essas manifestações são motivadores dos jovens, conduzindo a sua participação e a sensibilização necessária. As oficinas de arte permitem que o tema do encontro seja trabalhado de diversas formas, mesclando o intelecto e a emoção. A vaidade, a evidência e a promoção de personalidades devem ser evitadas, permitindo sempre a ampla participação. Afinal, não é um encontro de artes.
    7. O aspecto espiritual:
    Uma outra questão eu não podemos desconsiderar é o aspecto espiritual envolvido em um encontro deste porte. Além das narrativas de médiuns que trabalham nestes eventos, perfeitamente consoantes com o descrito nas obras da codificação e de André Luis, é de se esperar que um lugar que concentre tanta gente voltada para coisas sublimes seja palco de trabalho dos espíritos voltados para o bem. Isso nos remete a necessidade da vigilância dos pensamentos e da conversa construtiva, elementos essenciais para manter essa ambiência.
    8. Será que ele entendeu?
    Como pode se vislumbrar, seria difícil explicar para o meu amigo com palavras a complexidade das questões envolvidas em um encontro de jovens espíritas. "-Passar o feriado trancado em uma escola?", é o que continuarão pensando muitos. Entretanto, ali temos uma oportunidade bendita de evangelização e para os que participaram de vários encontros como evangelizador ou como confraternista, sabem que cada um representou um momento ímpar, uma vivência marcante e inesquecível que na balança das nossas escolhas como espírito encarnado, pesou muito na bagagem.
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e frequenta o Grêmio Espírita Atualpa em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com

    ARTIGO ESPÍRITA
    Desenho Animado é coisa séria:
    O imaginário infantil e os conceitos espíritas
    1-Uma guerra quase silenciosa.
    Interessante reportagem publicada em 29 de outubro de 2005 no caderno "Pensar" do Correio Brasiliense (DF), falando do lançamento do livro do biólogo Ernst Mayr, grande estudioso no século XX da obra de Charles Darwin (Aquele da Evolução das espécies), onde o artigo revela em suas linhas que vivemos uma guerra silenciosa no mundo atual, onde o criacionismo e a teoria do "Design inteligente" se confrontam as idéias evolucionistas originadas de Darwin. Apesar desta questão ter figurado em artigos de outros jornais e até em programas televisivos, ela ainda figura com um certo caráter de absurda, com um ar de comicidade face a teoria evolucionista dispor de um teor científico frente ao senso comum. Esse caráter de curioso e silencioso tem se apresentado na prática de outras forma. O palco desta luta é o livro, a sala de aula, a conversa entre os amigos durante o filme, e não está restrita apenas a nação estadunidense. Já sabemos de casos aqui no Brasil de alunos que se recusam a estudar e tiram zero nas questões sobre esse tema na disciplina de biologia, por contrariar a sua crença. São idéias "andando" por aí, se contrapondo em provocações e debates acirrados, em tempos de exacerbado fundamentalismo.
    Essa guerra de idéias típicas de séculos diferentes revela que as idéias estão imbricadas nas diversas expressões, de uma simples aula a uma música, e elas se espalham e se contrapõe em fóruns diversos. Outra "revolução" silenciosa de conceitos teológicos transmitidos está ocorrendo, sem ter alcançado, entretanto, as páginas dos jornais, como a questão do "homem ter vindo do macaco"- Imagino que isso ainda causa furor nos mais orgulhosos- mas que vai de encontro a conceitos estabelecidos por séculos pelas religiões dominantes do mundo ocidental.
    A idéia desse artigo é analisar idéias que recentemente estão sendo transmitidas para o público infantil nos programas para esse público, mormente a conceitos consoantes com as idéias espíritas, e como esse material pode ser utilizado pelo pai e evangelizador na formação conceitual dos nossos.
    2-TV criança.
    Na época do lampião de querosene, diversão da petizada era correr na rua, brincar de pião, de cabra-cega e uma série de jogos e cantigas, atividade que persiste até hoje em muitas regiões do país e por força de muitos educadores. Na década de 60, televisão era aquele artigo de luxo que apenas um menino de cada rua tinha ( na cidade grande) e reunia-se toda a rua para assistir aquele programa de sucesso na casa do menino. Era o início da TV, onde tudo era novidade e nesses quarenta e poucos anos muita coisa mudou. Falamos hoje da TV Digital, interatividade, fomos invadidos pela cor, pelos efeitos especiais e pelas várias opções de canais da TV por assinatura. No Brasil, cerca de 14% da população tem acesso a TV por assinatura e 90 % tem acesso a TV aberta e estima-se que a criança brasileira passa em média três horas em frente a tela, a maior média do mundo, conforme atestou pesquisa da Universidade de Brasília divulgada na revista VEJA de 18/01/2006. A TV transformou-se em ferramenta didática e entrou para a escola. Filmes, seriados, novelas e desenhos voltados para o público infantil e produzidos no mundo todo fazem da TV o substituto da babá contadora de histórias.
    Esses programas que invadem a nossa residência sem pedir licença trazem no seu simbolismo e no seu roteiro conceitos, oriundos por vezes da cultura do país produtor ou por vezes Merchandising cultural de hábitos e valores, inseridos conscientemente para estimular de maneira subliminar o consumo de determinados produtos, a inclusão, combate ao preconceito, ódio a um inimigo do país e até valores de conduta.
    3- A influências das histórias e dos personagens.
    Contudo, como essas histórias e personagens podem traduzir para as crianças conceitos, visões de mundo que podem interferir nos seus próprios conceitos? Os desenhos infantis substituem os antigos contadores, os narradores de outras épocas, que narravam o cotidiano e o maravilhoso. A grande diferença é que a história hoje já vem com texto e imagem, já "mastigada", com muita informação e pouco espaço para a interpretação e a imaginação, permitindo pouco espaço para a discussão. Os contos de fadas apresentados nos desenhos modernos apresentam a raiz de ser um instrumento psicológico para a criança enfrentar um mundo cheio de dificuldades, buscando a identificação com heróis, tendo hoje como diferencial a inserção de relações complexas e longas entre os personagens, com raízes psicanalíticas, onde persiste a "moral da história", geralmente associada ao pensamento chamado de "politicamente correto".
    Essas histórias então apresentam as nossas crianças soluções de como enfrentar o mundo, heróis, ídolos, fórmulas de conduta e verdades contextuais. Sim, cada desenho tem uma lógica, um conjunto de regras que funciona como a "verdade" daquele desenho. Por exemplo, no "Tom & Jerry", apesar de não falar verbalmente, os animais (gato e rato) pensam e se comunicam, o que difere da realidade, mas para aquele desenho é uma realidade contextual. A criança no seu mundo da imaginação importa aquelas verdades contextuais e volta ao nosso mundo, em suas viagens de revivência das histórias.
    Essas verdades contextuais influenciam a forma da criança ver o mundo, pois ele ali vive um mundo com novas regras. Ela não poderá voar como o "Peter Pan", mas a verdade contextual de não querer crescer pode ser para ela uma verdade interior e exterior. A criança aos poucos vai descobrir que ela não pode disparar raios pelas mãos, mas aos poucos ele também descobre que se não enfrentar o mundo, não conseguirá superar os obstáculos. Essas lógicas vão se confrontando e construindo as visões de mundo da criança, mediando o seu mundo de fantasia com o mundo real.
    A questão é que essa lógica do mundo da fantasia sempre foi monopolizada. Por questões de ideologia dominante e de cultura do produtor, os desenhos mais antigos como o citado "Tom & Jerry", "Pica-Pau", "Popeye, o marinheiro" ou "Mickey", sempre trataram as questões teológicas mais cruciais como Deus e a vida após a morte de forma secular e clássica, representando sempre a oposição entre anjos e demônios, o céu de nuvens e o inferno flamejante, bem aos estilo medieval, com caldeirão e harpas. O contexto geopolítico também era outro... Desse modo, esses paradigmas eram reforçados e naturalizados nas crianças que assistiam aqueles desenhos.
    4- Os conceitos espíritas.
    Com a década de 80, com a queda do muro de Berlim, o início da globalização, o mundo começou a intercambiar mais as suas culturas. Com a ampliação das comunicações, com a internet e a TV por assinatura, com a entrada de desenhos de outros países, mormente os europeus e os japoneses, o eixo ideológico desses desenhos mudou. As culturas desses países vinham agora imbricadas nesses novos desenhos e a queda de modelos mais tradicionais, o avanço da corrida espacial e da astronomia, tudo isso fez com que as temáticas teológicas tivessem outra abordagem nas verdades contextuais dos desenhos animados. A imaginação necessária a competição precisa alçar vôos e toda visão de mundo era importante para construir uma nova história. O público, mais crítico e esclarecido, tornava-se mais exigente e queria mais informações.
    Para ilustrar esse que é o ponto alto deste artigo, vamos citar alguns desenhos voltados para o público infantil bem recentes, a maioria em exibição ainda, identificando neles conceitos similares aos conceitos espíritas, descritos na tabela a seguir:
    Índice Conceito Espírita
    A Evolução dos espíritos
    B Comunicabilidade dos espíritos com os encarnados/Imortalidade da alma
    C Pluralidade dos mundos habitados
    D Pluralidade das existências (Reencarnação)
    Na lista a seguir vão os desenhos e caso o amigo leitor tenha dificuldade de identificar ou saber mais sobre algum dos títulos, pode perguntar para o seu filho ou sobrinho, que ele certamente saberá. Certamente, a maioria desses desenhos tem uma carga grande de violência, em muitos casos explícita, mas não é o nosso propósito avaliar o desenho em si e sim verificar a mudança de conceitos transmitidos.
    INU YASHA- Sucesso japonês, conta a história de uma menina que entra em um poço no fundo do seu quintal e lá retorna no tempo até o Japão feudal, onde vive situações relacionadas a sua encarnação nessa época, como uma sacerdotisa. Conceito (D).
    AVATAR- Desenho recente da Nickelodeon, fala de um tempo na China onde as pessoas dominavam os elementos- Ar, água, terra e fogo e o Avatar que estabeleceria a ordem é aquele que já encarnou nas tribos dos quatro elementos. Conceito (D).
    DRAGON BALL – Desenho japonês inspirado em uma lenda chinesa, conta a história de um menino com rabo de macaco e muito forte que na verdade veio de outro planeta e vive aventuras na Terra na busca das esferas do dragão. Tem vários episódios ocorridos no "mundo espiritual". Conceito (C) e (B).
    YU YU HAKUSHO- Desenho japonês onde Yusuke Urameshi é um jovem indisciplinado que perde a vida ao salvar uma criança de um atropelamento. Por recompensa, ele se torna um "detetive" do mundo espiritual, travando nestes grandes batalhas. Conceito (B)
    OS CAVALEIROS DO ZODÍACO- Outro grande sucesso nipônico, onde jovens de um orfanato são criados por um milionário que os treina para se tornarem cavaleiros com armaduras especiais para salvar a Terra de um perigo iminente e defender a jovem Saori, reencarnação da Deusa Athena. Conceito (D).
    A MÚMIA- Desenho Norte-Americano inspirado na refilmagem do clássico de 1932, trata de uma família de arqueologistas contra uma múmia que volta a viver. Baseado na mitologia egípcia, trata da reencarnação de personagens com grande naturalidade. Conceito (D).
    SHAMAN KING- Desenho japonês que narra a aventura de jovens xamãs (Médiuns) que com a ajuda de espíritos guerreiros dos passado, travam batalhas "incorporados" entre si. Conceito (B).
    DISNEY- O mega estúdio Disney tem produções com temáticas interessantes, como Irmão Urso e Mulan, que apresentam contatos ostensivos com entidades já desencarnadas e outros como Little e Stitch e o Galinho Chicken Little, que tratam naturalmente da vida em outros planetas. Conceito (B)
    STAR WARS- A saga de seis filmes de George Lucas que resultou em diversos desenhos correlatos, além de considerar a vida em outros planetas, fala da "força", um tipo de fluido que pode ser manipulado. Apresenta também personagens desencarnados que realizam aparições e se comunicam com os encarnados. Conceito (B) e (C) .
    GHOSTBUSTERS- Desenho inspirado no filme de sucesso que teve a sua continuação fala de um grupo que resolve montar uma empresa para caçar fantasmas. Conceito (B).
    SCOOBY-DOO – O velho cão medroso e o seu amigo ainda fazem muito sucesso, em filme ou nos desenhos. A comunicação com os espíritos é na maioria das vezes revelada como um embuste com fins comerciais. Entretanto, os episódios nunca negam a existência destes fenômenos. Conceito (B).
    MARTIN MYSTERY- Um jovem estudante e a sua irmã acompanhados de um homem das cavernas são membros de uma agência que investiga eventos paranormais em vários planetas, aparecendo nos episódios toda sorte de fenômeno mediúnico. Conceitos (A), (B) e (C).
    A TURMA DA MÔNICA- Os nossos queridos personagens brasileiros esbanjam conceitos com o Astronauta visitando outros planetas, o dinossauro Horácio e o Piteco na pré-história e a turma do Penadinho, que sempre traz aspectos da reencarnação e da mediunidade. Conceitos (A) ,(B), (C) e (D).
    DINOSSAUROS- Diversos desenhos de várias nacionalidades têm como pano de fundo a questão dos dinossauros, caracterizando as idéias de evolução. Conceito (A).
    DANNY PHANTOM- Desenho Norte-Americano que narra às aventuras de menino filho de caçadores de fantasmas que por um acidente passa a poder se transformar em fantasma e combate os espectros do mal na busca de defender a sua cidade, com diversos fenômenos mediúnicos nos episódios, como incorporação. Conceito (B).
    HARRY POTTER- O bruxinho mais famoso do planeta, ratificando a sua origem inglesa, apresenta fantasmas do passado passeando pela escola e conversando com os alunos em todos os filmes. Conceito (B).
    Como podemos verificar, a lista é extensa e com certeza incompleta. Pergunte a qualquer criança e com certeza ela já viu algum desses desenhos, pois são todos bem recentes. Além disso, a maioria tem a sua versão em livro ou em quadrinhos.
    Obviamente, os conceitos apresentados nos desenhos apresentam várias distorções dos conceitos espíritas, mas isso não invalida que foi rompida a hegemonia do paradigma anterior de céu versus inferno. Como era de se esperar, a predominância é nas questões da mediunidade e suas facetas e na vida em outros planetas, fruto dos avanços da astronomia e das descobertas da Transcomunicação Instrumental e estudos afins, sendo que os desenhos orientais apresentam mais a questão da reencarnação, que enriquece muito a trama.
    5- Como potencializar isso?
    Como dito, certamente os nossos alunos da evangelização ou filhos assistem ou já assistiram pelo menos um desses desenhos. É inevitável, pois eles estão na escola, nos produtos licenciados e no jornaleiro. Nessa relação que o nosso evangelizando/filho estabelece com um desses programas é uma oportunidade ímpar de explorar os conceitos espíritas e até morais ali contidos e criar uma discussão frutífera sobre o tema.
    Hoje a educação toda gira em torno de trabalhar a partir da realidade do aluno. Se nessa realidade já estamos encontrando conceitos que são afins com os nossos conceitos espíritas, nós temos que trazê-los para a análise crítica. Não nos cabe somente ver o mundo contido na doutrina espírita e sim identificar a doutrina espírita no mundo. Como o apelo e a influência desses desenhos sobre as crianças são enormes, o ponto de convergência deve servir de "fio da meada" para iniciar uma discussão de conteúdo. Se na sala de casa com os amigos assistindo a um desses desenhos o nosso evangelizando/filho explicar o que realmente aconteceu à luz da doutrina espírita, o conceito ali se consolidou.
    6- Conclusão.
    Às vezes tendemos a isolar ou ignorar o material divulgado pela TV por ferirem a pureza doutrinária. O fato é que a revolução silenciosa dos conceitos teológicos está aí. Porém, raramente um desses desenhos será integralmente fiel aos conceitos doutrinários, até por que a sua finalidade é outra. Certos mecanismos conceituais básicos podem ser ilustrados a partir destes elementos da realidade das crianças, permitindo a elas um melhor discernimento. Fugirmos disso é cairmos em uma redoma, bem próximo dos nossos amigos criacionistas.
    Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro "Alegria de servir" pela FEB. Email: ethelbraga@hotmail.com